A saúde oral pode estar a comprometer o seu desempenho desportivo
E muitos atletas não se apercebem…
Quando um atleta procura melhorar o seu desempenho, pensa normalmente no treino, na alimentação, na recuperação ou na preparação mental. Poucos imaginam que uma cárie, uma gengiva inflamada ou um desgaste dentário possam fazer parte da equação. A evidência científica sugere precisamente isso: a saúde oral pode influenciar a forma como treinamos, recuperamos e competimos.
Durante muitos anos, a Medicina Dentária foi encarada, no contexto desportivo, sobretudo como uma resposta aos traumatismos. Um dente partido durante um jogo ou uma lesão causada por um impacto eram vistos como os principais problemas orais dos atletas.
Hoje sabemos que a realidade é bastante mais complexa.
A investigação realizada na última década demonstra que problemas como a cárie dentária, a doença periodontal, a erosão dentária, as infeções orais e até o bruxismo são surpreendentemente frequentes entre atletas de alta competição. Mais importante ainda, um número significativo refere que estes problemas afetam o treino, a recuperação e o próprio rendimento desportivo.
A boca não é um sistema isolado do resto do organismo. Tal como acontece com qualquer outra estrutura do corpo, alterações na sua saúde podem ter repercussões que vão muito além do sorriso.
A boca faz parte do organismo e também da performance
É fácil pensar na saúde oral apenas em termos de dentes. No entanto, a cavidade oral é um tecido biologicamente ativo, intensamente vascularizado e permanentemente ligado ao restante organismo.
Quando existe uma doença oral persistente, como a doença periodontal, ocorre uma resposta inflamatória contínua. Embora a forma como esta inflamação influencia diretamente o desempenho desportivo continue a ser objeto de investigação, sabe-se que a inflamação crónica pode afetar diferentes sistemas do organismo e contribuir para uma menor sensação de bem-estar.
Por outro lado, problemas aparentemente simples podem ter consequências muito práticas porque, quando falamos de atletas de alto rendimento, em que diferenças mínimas podem separar o primeiro do quinto lugar, estes pequenos fatores deixam de ser insignificantes.
· Uma dor dentária pode perturbar o sono.
· Uma infeção pode obrigar à suspensão de treinos.
· Uma dificuldade em mastigar pode comprometer a ingestão alimentar.
· Uma sensibilidade intensa pode dificultar a hidratação adequada.
O que diz a ciência?
A preocupação com a saúde oral dos atletas não é recente. Um dos estudos mais marcantes foi realizado durante os Jogos Olímpicos de Londres de 2012. A investigação revelou uma elevada prevalência de problemas dentários entre atletas olímpicos, incluindo cárie dentária, doença periodontal e erosão dentária. Muitos dos participantes referiram que estas condições afetavam negativamente a sua qualidade de vida e o seu desempenho desportivo.
Desde então, várias revisões sistemáticas chegaram a conclusões semelhantes: embora ainda existam limitações metodológicas e sejam necessários mais estudos prospetivos, existe evidência consistente de que a saúde oral pode influenciar o bem-estar e, em determinadas circunstâncias, o rendimento desportivo.
Mais recentemente, um estudo publicado em 2026 no British Dental Journal comparou, pela primeira vez, atletas de elite e para-atletas de elite. Os resultados mostraram que mais de metade dos participantes referiu impactos da saúde oral na sua vida diária e cerca de metade afirmou que problemas orais interferiram com os treinos ou com a competição durante o último ano. Curiosamente, os atletas de elite reportaram um impacto no desempenho significativamente superior ao observado nos para-atletas.
Embora este estudo não demonstre uma relação de causa e efeito, reforça a ideia de que a saúde oral deve ser considerada parte integrante da preparação física e médica dos atletas.
Porque é que os atletas apresentam um risco acrescido?
À primeira vista, pode parecer surpreendente que pessoas tão preocupadas com a saúde apresentem uma elevada frequência de problemas orais. A explicação está, em parte, nas exigências específicas da prática desportiva.
Alimentação desportiva
Bebidas isotónicas, bebidas energéticas, géis e suplementos ricos em hidratos de carbono desempenham um papel importante em muitas modalidades. Contudo, muitos destes produtos apresentam elevada acidez e contêm açúcares fermentáveis, fatores que favorecem simultaneamente a erosão dentária e o desenvolvimento de cárie.
Não significa que devam ser evitados quando são clinicamente indicados, mas a sua utilização deve ser acompanhada por estratégias de proteção da saúde oral.
Desidratação
Durante o exercício intenso, a diminuição do fluxo salivar é frequente.
A saliva constitui um dos principais mecanismos naturais de defesa da cavidade oral. Neutraliza ácidos, ajuda na remineralização do esmalte e reduz a proliferação bacteriana. Quando a produção salivar diminui, os dentes tornam-se mais vulneráveis.
Rotinas exigentes
Treinos diários, deslocações, competições e estágios fazem com que muitos atletas adiem consultas de Medicina Oral.
É frequente procurar assistência apenas quando surge dor, altura em que o problema já evoluiu para fases mais complexas.
Traumatismos
Em modalidades de contacto, o risco de fraturas dentárias continua a ser uma realidade. Nestes casos, a utilização de protetores bucais individualizados continua a ser uma das medidas preventivas mais eficazes.
Stress competitivo
A tensão psicológica associada à competição pode contribuir para hábitos parafuncionais, como o apertamento ou o ranger dos dentes, favorecendo desgaste dentário, dores musculares e alterações da articulação temporomandibular.
Os problemas orais mais frequentes nos atletas
Cárie dentária
Continua a ser uma das doenças crónicas mais frequentes em todo o mundo e não poupa os atletas.
Quando não tratada, pode provocar dor, infeção e necessidade de tratamentos urgentes durante a época competitiva.
Doença periodontal
O sangramento gengival nunca deve ser considerado normal.
A doença periodontal resulta da inflamação dos tecidos que suportam os dentes e, quando progride, pode levar à perda de suporte ósseo e, em casos avançados, à perda dentária.
Erosão dentária
Resulta da perda progressiva do esmalte devido à ação de ácidos, frequentemente agravada pelo consumo repetido de bebidas isotónicas e energéticas.
Ao contrário da cárie, a erosão não depende da ação das bactérias. É um processo irreversível.
Bruxismo
Muitos atletas apertam ou rangem os dentes, sobretudo durante períodos de maior exigência competitiva.
O desgaste dentário, a dor muscular e as cefaleias podem ser algumas das suas manifestações.
Traumatismos
São particularmente relevantes em modalidades de contacto.
Felizmente, uma parte significativa destas lesões pode ser evitada através de medidas preventivas adequadas.
Muito mais do que dor
Existe uma ideia errada de que só devemos preocupar-nos quando aparece dor. Na realidade, muitas doenças orais evoluem silenciosamente durante meses ou anos.
Uma gengivite inicial raramente provoca sintomas importantes; uma pequena lesão de cárie pode ser totalmente assintomática e o desgaste dentário instala-se. É precisamente por isso que a prevenção assume um papel tão importante.
Esperar pela dor significa, muitas vezes, perder a oportunidade de intervir numa fase em que o tratamento seria mais simples, menos invasivo e menos dispendioso.
Sete sinais que um atleta não deve ignorar
Independentemente da modalidade praticada, vale a pena procurar uma avaliação de Medicina Oral se notar:
sangramento das gengivas durante a escovagem;
sensibilidade persistente ao frio ou ao doce;
dor ao mastigar;
desgaste dos dentes;
boca seca frequente;
dor ou estalidos na mandíbula;
mau hálito persistente.
São alterações frequentemente desvalorizadas, mas que podem representar o início de doenças que comprometem não apenas a saúde oral, como também o conforto durante o treino e a competição.
A prevenção também faz parte do treino
Hoje ninguém questiona a importância da nutrição, da fisioterapia ou da preparação psicológica e a saúde oral deve integrar essa mesma abordagem multidisciplinar.
Uma avaliação periódica permite identificar problemas precocemente, reduzir o risco de urgências durante a época competitiva e adaptar estratégias preventivas às características de cada modalidade. Do mesmo modo, a colaboração entre médicos dentistas, médicos do desporto, nutricionistas e fisioterapeutas contribui para uma abordagem mais completa do atleta.
Os atletas investem milhares de horas para ganhar pequenas vantagens competitivas. Ajustam programas de treino, aperfeiçoam a técnica, monitorizam a recuperação e analisam detalhadamente a alimentação - a saúde oral merece o mesmo nível de atenção.
Não porque, por si só, transforme um atleta mediano num campeão, mas porque pode eliminar um fator evitável que interfere com o conforto, a alimentação, o sono, a recuperação e, em alguns casos, com o próprio desempenho.
A evidência científica continua a evoluir, mas a mensagem é cada vez mais clara: cuidar da saúde oral não é apenas uma questão de preservar dentes. É uma parte integrante da saúde global e, para quem pratica desporto, também pode ser uma componente importante da preparação para competir no seu melhor.
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