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Medicamentos como o Ozempic podem alterar o paladar mas o impacto na boca não fica por aí

Medicamentos como o Ozempic podem provocar boca seca, alterações do paladar, mau hálito e maior exposição dos dentes aos ácidos do refluxo. Saiba reconhecer os sinais e proteger a sua saúde oral. 

Está a tomar Ozempic? A sua boca também pode sentir os efeitos.

A semaglutida, princípio ativo de medicamentos como o Ozempic, o Wegovy e o Rybelsus, tornou-se uma opção importante no tratamento da diabetes tipo 2 e da obesidade. Os seus efeitos sobre o peso, o apetite e o controlo da glicemia são bem conhecidos. Menos conhecida é a forma como algumas das alterações provocadas pelo medicamento podem chegar à boca.

Boca seca, alterações do paladar, mau hálito ou maior sensibilidade dentária são alguns dos sintomas descritos por quem toma semaglutida. Isto não significa que o medicamento ataque diretamente os dentes — essa relação não foi demonstrada. O que pode acontecer é que alguns dos seus efeitos secundários criem condições mais favoráveis ao aparecimento de problemas orais.

Uma revisão publicada em 2026 no Canadian Journal of Diabetes chama precisamente a atenção para esta relação. Os autores identificam a diminuição da saliva, o refluxo, os vómitos, as alterações do paladar e as mudanças na alimentação como os principais aspetos a vigiar.

Porque é que a boca pode ficar mais seca?

A sensação de boca seca não é apenas incómoda. A saliva desempenha um papel muito mais importante do que muitas vezes imaginamos: ajuda a limpar a boca, neutraliza os ácidos, dificulta a multiplicação de microrganismos e contribui para a proteção do esmalte.

Quando existe menos saliva, falar, mastigar ou engolir pode tornar-se desconfortável. Algumas pessoas sentem sede constante, notam a saliva mais espessa ou acordam durante a noite com a boca completamente seca. Se esta situação se mantiver, pode aumentar a probabilidade de desenvolver cáries, inflamação das gengivas, mau hálito e algumas infeções orais.

Beber água ao longo do dia e mascar pastilha elástica sem açúcar, preferencialmente com xilitol, pode estimular a produção de saliva. Mas uma secura intensa ou persistente não deve ser simplesmente ignorada. É importante perceber se está realmente relacionada com a semaglutida ou se existem outros medicamentos ou problemas de saúde envolvidos.

O mau hálito pode não ter origem apenas na boca

A semaglutida abranda o esvaziamento do estômago. É parte da razão pela qual prolonga a sensação de saciedade, mas também pode favorecer eructações, refluxo e, em algumas pessoas, um hálito particularmente desagradável.

Ao mesmo tempo, uma boca mais seca perde parte da sua capacidade natural de limpeza. As bactérias e os restos alimentares permanecem durante mais tempo sobre a língua, os dentes e as gengivas, contribuindo para o odor.

Ainda assim, não se deve assumir que todo o mau hálito de uma pessoa medicada com semaglutida é causado pelo tratamento. A placa bacteriana, a doença das gengivas, as cáries, a acumulação de resíduos na língua e até outros problemas digestivos podem estar na origem do sintoma. Um elixir pode disfarçar temporariamente o cheiro, mas não resolve a causa.

O paladar também pode mudar

Há pessoas que começam a sentir um sabor metálico ou amargo, deixam de apreciar determinados alimentos ou passam a sentir os sabores de forma diferente. Como grande parte daquilo a que chamamos sabor depende também do olfato, as duas alterações podem surgir em conjunto.

Um estudo publicado em 2026 no JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery analisou os registos clínicos de quase 877 mil pessoas com diabetes tipo 2. Metade utilizava medicamentos agonistas dos recetores GLP-1 e a outra metade estava medicada com outros antidiabéticos.

Durante um seguimento de até dois anos, foram registadas alterações do paladar ou do olfato em 0,37% dos utilizadores de medicamentos GLP-1, comparativamente a 0,22% no grupo de controlo. Quando os sentidos foram analisados separadamente, as alterações do paladar surgiram em 0,18% dos utilizadores de GLP-1 e em 0,10% dos restantes participantes. No olfato, os valores foram de 0,15% e 0,07%, respetivamente.

Há, portanto, uma diferença. Mas é igualmente importante colocar estes números em perspetiva: apesar do aumento relativo, estas alterações foram pouco frequentes nos dois grupos.

Além disso, o estudo não avaliou apenas a semaglutida, mas vários medicamentos da mesma família. Tratando-se de uma investigação observacional, permite identificar uma associação, mas não provar que os medicamentos foram a causa direta do problema.

Refluxo e vómitos podem deixar marcas nos dentes

O refluxo, as náuseas e os vómitos são efeitos secundários conhecidos dos medicamentos GLP-1. Quando acontecem apenas ocasionalmente, é pouco provável que causem alterações dentárias importantes. A preocupação surge quando os dentes são expostos repetidamente ao ácido do estômago.

Com o tempo, esse contacto pode desgastar o esmalte. Os dentes podem ficar mais sensíveis ao frio, ao calor ou aos alimentos doces, adquirir um tom mais amarelado ou apresentar superfícies mais lisas e translúcidas. Este processo chama-se erosão dentária e, uma vez perdida, a estrutura do esmalte não se regenera.

Depois de vomitar, a reação imediata de muitas pessoas é escovar os dentes. No entanto, esse é precisamente o momento em que o esmalte está mais amolecido pela acidez. O ideal é bochechar primeiro com água, esperar entre 30 e 60 minutos e só depois escovar suavemente, utilizando uma escova macia e uma pasta dentífrica com flúor.

Se os vómitos ou o refluxo forem frequentes, é importante falar com o médico que acompanha o tratamento. Não é aconselhável aceitar estes sintomas como uma consequência inevitável da medicação.

O que deve fazer para proteger a sua saúde oral?

Na maioria dos casos, não são necessários cuidados extraordinários. É, contudo, importante não desvalorizar os sinais que aparecem depois de iniciar ou aumentar a dose do medicamento.

Uma boa higiene oral continua a ser a principal proteção: escovar os dentes duas vezes por dia com uma pasta fluoretada, limpar diariamente os espaços entre os dentes e remover suavemente os resíduos acumulados sobre a língua. Beber água regularmente também é particularmente importante quando existe sensação de boca seca.

As alterações do apetite merecem igualmente atenção. Comer muito menos não significa necessariamente comer melhor. Uma alimentação pouco variada ou demasiado restritiva pode levar a défices de vitaminas, minerais e proteínas, com consequências para a saúde geral e para os tecidos da boca.

Há ainda uma informação que deve ser sempre transmitida ao médico dentista: a utilização de semaglutida ou de outro medicamento GLP-1. Esta indicação torna-se especialmente relevante antes de uma cirurgia oral com sedação profunda ou anestesia geral, porque o atraso do esvaziamento do estômago pode aumentar o risco de regurgitação. A medicação não deve, porém, ser interrompida sem orientação da equipa médica.

Não é motivo para deixar o tratamento

Os benefícios da semaglutida podem ser muito significativos e os problemas orais descritos não afetam a maioria das pessoas. Também não existe evidência de que o medicamento destrua diretamente os dentes, apesar de expressões alarmistas como “Ozempic teeth” se terem tornado populares nas redes sociais.

O mais sensato é estar atento. Uma boca persistentemente seca, alterações repentinas do paladar, mau hálito que não desaparece, refluxo frequente ou sensibilidade dentária merecem ser avaliados. Reconhecer estes sinais cedo permite proteger a saúde oral sem comprometer um tratamento que pode ser importante para a saúde geral.

Referências

  1. Kofman K, Ouanounou A. Oral Health Considerations and Dental Management Guidelines for Semaglutide Medications. Canadian Journal of Diabetes. 2026. doi:10.1016/j.jcjd.2026.03.008.

  2. Zontag J, Zontag N. Smell and Taste Disturbances Among Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist Users. JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery. 2026;152(8):758-765. doi:10.1001/jamaoto.2026.1498.

 

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O que pode mudar na sua boca com a menopausa

A menopausa ou a perimenopausa podem afetar a saúde oral. Boca seca, ardor na boca ou língua, alterações do paladar, gengivas mais sensíveis ou com sangramento e alterações periodontais podem surgir durante a perimenopausa e a menopausa. Saiba porque acontecem estas mudanças, quais os sinais a que deve estar atenta e quando procurar uma avaliação de saúde oral.

A menopausa, ou a perimenopausa, pode mudar a sua boca, e há sinais que não deve ignorar.

Boca seca, ardor, alterações do paladar ou gengivas que começam a sangrar podem surgir durante a transição para a menopausa. Nem sempre são causados pelas alterações hormonais, mas também não devem ser considerados acontecimentos sem importância.

Quando pensamos na perimenopausa e na menopausa, é natural pensar primeiro nos afrontamentos, nas alterações do sono, do humor ou da composição corporal. Porém, a boca raramente entra nesta lista.

No entanto, a evidência científica mostra que a transição hormonal pode também fazer-se sentir na cavidade oral. Alterações da saliva, sensação de boca seca, ardor, modificações do paladar e alterações dos tecidos periodontais têm sido descritas em mulheres durante e após a menopausa.

Isto não significa que todos os problemas orais que aparecem nesta fase sejam provocados pela menopausa. Significa, sim, que a menopausa deve fazer parte da história clínica oral da mulher.

Porque é que as hormonas podem afetar a boca?

A diminuição dos níveis de estrogénios que acompanha a menopausa tem repercussões em diferentes tecidos do organismo.

A cavidade oral não é uma exceção. Existem recetores hormonais na mucosa oral e nas glândulas salivares, e têm sido estudadas associações entre a transição menopáusica e alterações da saliva, mucosas, osso alveolar e tecidos periodontais.

Mas é importante não simplificar demasiado esta relação.

A Idade, medicamentos, tabaco, diabetes, higiene oral, doença periodontal pré-existente, osteoporose e outras condições de saúde podem contribuir simultaneamente para aquilo que acontece na boca e a evidência mais recente reforça precisamente esta visão multifatorial.

1. A boca seca é muito mais do que uma sensação desagradável

Uma das queixas descritas com maior frequência é a xerostomia, ou sensação de boca seca.

A saliva desempenha funções essenciais: ajuda a limpar a cavidade oral, neutraliza ácidos, protege os dentes e as mucosas e facilita a mastigação, a deglutição e a perceção do sabor.

Alguns estudos identificaram redução do fluxo salivar e alterações do pH salivar em mulheres após a menopausa. Uma revisão recente da literatura identificou a xerostomia e as alterações do paladar entre as manifestações orais mais frequentemente descritas.

Quando existe efetivamente uma diminuição da produção de saliva, pode aumentar a vulnerabilidade à cárie e a algumas infeções orais. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 analisou especificamente a relação entre menopausa e experiência de cárie dentária, salientando o possível papel das alterações salivares neste período.

Há, contudo, uma questão essencial: boca seca não significa necessariamente menopausa.

Muitos medicamentos, incluindo alguns utilizados com maior frequência a partir da meia-idade também podem diminuir o fluxo salivar. Doenças sistémicas, desidratação e outros fatores também devem ser considerados.

Por isso, uma boca persistentemente seca deve ser avaliada, e não simplesmente atribuída à idade ou às hormonas.

2. Quando a boca arde, mas parece normal

Outra manifestação particularmente relevante é a sensação persistente de ardor na boca ou na língua.

A síndrome de ardor bucal ocorre predominantemente em mulheres peri e pós-menopáusicas e pode acompanhar-se de alterações do paladar, sensação de boca seca ou outras alterações sensitivas.

Um aspeto que pode tornar esta situação particularmente frustrante é o facto de a boca poder apresentar uma aparência perfeitamente normal.

E é precisamente por isso que o sintoma não deve ser desvalorizado.

A síndrome de boca ardente é uma condição complexa e a sua relação com as hormonas sexuais continua a ser investigada. Nem todo o ardor oral durante a menopausa corresponde a esta síndrome. Antes de estabelecer o diagnóstico, é sempre necessário excluir outras causas possíveis.

Deficiências nutricionais, candidíase, alterações salivares, determinados medicamentos e outras doenças da mucosa oral podem produzir sintomas semelhantes.

Uma boca que arde persistentemente precisa sempre de diagnóstico, mesmo quando aparentemente não existe nada para ver.

3. E as gengivas?

Também aqui a relação é mais complexa do que simplesmente afirmar que “a menopausa provoca periodontite”.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 comparou parâmetros periodontais em mulheres pré e pós-menopáusicas. Os estudos incluídos apontaram para maior perda de inserção clínica, maiores profundidades de sondagem e sinais inflamatórios mais pronunciados nas mulheres pós-menopáusicas.

Mas os próprios investigadores deixam uma advertência importante: a certeza da evidência disponível é ainda moderada a baixa e existe considerável variabilidade metodológica entre os estudos. 

Ou seja, a menopausa parece constituir um fator clinicamente relevante, mas não atua isoladamente.

Placa bacteriana, doença periodontal anterior, tabagismo, diabetes, higiene oral, genética e outros determinantes continuam a ser fundamentais.

Por isso, se uma mulher começa a notar gengivas mais sensíveis, sangramento, retração gengival ou mobilidade dentária, não deve assumir simplesmente que “é da menopausa”. É necessário perceber porquê.

4. Menopausa, osso e dentes: qual é a relação?

A diminuição dos estrogénios está também relacionada com alterações do metabolismo ósseo e com o risco de osteoporose.

Como os dentes são suportados pelo osso alveolar, tem sido estudada a possível relação entre perda de densidade mineral óssea sistémica e alterações dos tecidos que suportam os dentes. A literatura recente identifica alterações ósseas alveolares entre os aspetos que merecem atenção nas mulheres após a menopausa, sobretudo quando existe osteoporose.

Mas também aqui é necessário evitar conclusões precipitadas: a menopausa, ou a perimenopausa, não significam inevitavelmente perda dentária.

A manutenção dos dentes depende de muitos fatores e a prevenção e o tratamento adequado da doença periodontal continuam a ter um papel determinante.

A boca pode estar a dizer que alguma coisa mudou

Há sintomas que merecem particular atenção quando aparecem de novo ou persistem:

  • sensação frequente de boca seca;

  • ardor ou dor na língua ou noutras áreas da boca;

  • alteração persistente do paladar, incluindo sabor metálico;

  • gengivas que começam a sangrar, ficam mais sensíveis ou retraem;

  • feridas ou alterações da mucosa que não desaparecem;

  • manchas brancas ou vermelhas persistentes;

  • dificuldade em mastigar ou engolir;

  • mobilidade dentária.

Nenhum destes sinais permite concluir, por si só, que a causa é hormonal e essa é precisamente a razão para os investigar.

A menopausa deve fazer parte da consulta de saúde oral

Uma revisão integrativa recente encontrou não só necessidades de saúde oral nesta população, mas também lacunas importantes no conhecimento das próprias mulheres e dos profissionais de saúde relativamente à saúde oral durante a perimenopausa e menopausa.

A história clínica deve, por isso, acompanhar esta fase da vida e na consulta, é importante informar o médico dentista sobre:

  • a fase da transição menopáusica em que se encontra;

  • sintomas orais novos e quando começaram;

  • medicamentos e suplementos utilizados;

  • diagnóstico de osteopenia ou osteoporose;

  • terapêutica hormonal, quando aplicável;

  • outras alterações relevantes do estado de saúde.

Esta informação pode ajudar a distinguir uma manifestação potencialmente associada à menopausa de uma doença oral independente que necessita de tratamento específico.

O que pode fazer para proteger a saúde oral?

A estratégia não passa por aceitar estas alterações como inevitáveis! 

Uma higiene oral adequada com dentífrico fluoretado, limpeza diária dos espaços interdentários, consultas regulares e avaliação precoce de novos sintomas continuam a constituir a base da prevenção. Nos casos de xerostomia, doença periodontal ou outras alterações específicas, podem ser necessárias medidas preventivas ou terapêuticas individualizadas.

E quanto à terapêutica hormonal da menopausa?

Embora existam estudos sobre os seus possíveis efeitos na saliva, tecidos periodontais e outros parâmetros orais, não deve ser encarada como um tratamento geral para os sintomas da boca. A evidência permanece heterogénea e a indicação para terapêutica hormonal deve ser estabelecida no contexto global da saúde da mulher, não exclusivamente em função da saúde oral.

Uma mudança que merece ser falada

Durante décadas, muitos aspetos da menopausa foram encarados como sintomas que as mulheres simplesmente teriam de aceitar. A saúde oral não deve seguir esse caminho.

Uma boca persistentemente seca, uma sensação de ardor sem causa aparente, uma alteração do paladar ou gengivas que começam subitamente a sangrar podem ter múltiplas explicações e a menopausa pode ser uma delas.

O importante é não normalizar aquilo que merece ser investigado.

Na IMEDGaia, a avaliação da saúde oral considera não apenas os dentes, mas também as mucosas, a saliva, os tecidos periodontais, a medicação, os antecedentes clínicos e as alterações sistémicas que podem influenciar aquilo que acontece na boca.

Porque a boca também faz parte da saúde da mulher, na perimenopausa, menopausa e pós-menopausa.

Referências bibliográficas

Civiletto-S Martín F, Rus MJ, de la Cruz Gándara Alvarez A, Simon-Soro A, Cantiga-Silva C. Impact of menopause on clinical periodontal outcomes: a systematic review.Clinical Oral Investigations. 2026;30(4):143. doi:10.1007/s00784-026-06813-y.

Thomas N, Peters K, O'Reilly K, Sousa MS, George A. Oral Health Care Among Women in Perimenopause or Menopause: An Integrative Review.Journal of Midwifery & Women's Health. 2025;70(1):17–31. doi:10.1111/jmwh.13668.

Oral Manifestations in Menopause - A Scoping Review. Revisão de 30 estudos publicados entre 2019 e 2024, abordando alterações salivares, periodontais, ósseas, microbioma e outras manifestações orais relacionadas com a menopausa.

Shrivastava S. Menopause and Oral Health: Clinical Implications and Preventive Strategies.Journal of Mid-life Health. 2024. doi:10.4103/jmh.jmh_125_24.

Liu YF, Kim Y, Yoo T, Han P, Inman JC. Burning mouth syndrome: a systematic review of treatments.Oral Diseases. 2018. doi:10.1111/odi.12660.

Meurman JH, Tarkkila L, Tiitinen A. The menopause and oral health.Maturitas. 2009;63:56–62. doi:10.1016/j.maturitas.2009.02.009.

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Bebidas açucaradas e cancro oral

Uma bebida açucarada por dia pode ter mais impacto na boca do que imaginamos.

O que revela um estudo com mais de 160 mil mulheres

Consumir uma ou mais bebidas açucaradas por dia esteve associado a um risco de cancro oral quase cinco vezes superior. O resultado merece atenção, mas precisa de ser lido para além do número.

Um novo dado num problema que está a mudar

Quando pensamos nos principais fatores de risco para o cancro oral, o tabaco e o álcool surgem quase sempre em primeiro lugar, e com razão. Mas a incidência da doença tem vindo a aumentar em alguns grupos sem estas exposições tradicionais, incluindo pessoas mais jovens e mulheres que nunca fumaram. Isso obrigou a investigação a procurar outras explicações.

Um estudo publicado em 2025 na revista JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery colocou uma possibilidade até agora pouco explorada no centro da discussão: o consumo habitual de bebidas açucaradas.

O que foi estudado?

Os investigadores analisaram dados de 162 602 participantes do Nurses’ Health Study e do Nurses’ Health Study II, duas grandes coortes de profissionais de enfermagem dos Estados Unidos. As mulheres tinham, em média, 43 anos no início da análise e foram acompanhadas durante cerca de três décadas.

A alimentação foi avaliada repetidamente através de questionários. Neste estudo, a categoria de bebidas açucaradas incluiu refrigerantes com açúcar, bebidas gaseificadas açucaradas que não eram colas e bebidas não gaseificadas adoçadas, como limonada e chá açucarado. Uma porção correspondia a um copo, garrafa ou lata.

Ao longo do período de seguimento foram identificados 124 casos invasivos de cancro da cavidade oral. Os investigadores compararam quatro níveis de consumo, desde menos de uma bebida por mês até uma ou mais por dia, e ajustaram a análise a fatores como idade, consumo de tabaco e álcool, índice de massa corporal, ingestão calórica e carga glicémica da dieta.

O resultado que chamou a atenção

As participantes que consumiam uma ou mais bebidas açucaradas por dia apresentaram um risco de cancro da cavidade oral 4,87 vezes superior ao das mulheres que consumiam menos de uma por mês. A associação manteve-se depois dos ajustamentos estatísticos.

Quando a análise foi limitada a mulheres que nunca fumaram ou fumaram pouco e que não bebiam álcool ou tinham um consumo reduzido, o risco relativo foi 5,46 vezes superior no grupo de consumo diário.

Quase cinco vezes mais risco não significa cinco vezes mais casos

Este é o ponto que impede uma conclusão alarmista. O cancro oral foi pouco frequente nesta população. Entre todas as participantes, a taxa estimada passou de 2 para 5 casos por 100 000 pessoas, ou seja, mais 3 casos por 100 000. No subgrupo com baixa exposição a tabaco e álcool, passou de 1 para 4 casos por 100 000.

O aumento relativo é elevado; o aumento absoluto continua a ser pequeno. Ambos são verdadeiros e ambos devem ser comunicados. O estudo não justifica pânico nem permite calcular o risco individual de uma pessoa a partir do número de refrigerantes que bebe.

Como poderá o açúcar estar envolvido?

Os autores apresentam várias hipóteses biológicas, mas nenhuma foi testada diretamente neste trabalho.

Inflamação e doença periodontal: um consumo elevado de açúcares adicionados e de bebidas açucaradas tem sido associado a maior prevalência de periodontite. A inflamação crónica poderá contribuir para um ambiente oral menos saudável.

Alteração do microbioma oral: a exposição frequente ao açúcar pode favorecer desequilíbrios entre microrganismos da boca. Esta disbiose poderá interferir com a barreira da mucosa e com a resposta imunitária local.

Vias metabólicas: picos repetidos de glicose e insulina podem influenciar o eixo insulina–IGF-1, envolvido na proliferação celular, embora esta explicação permaneça por demonstrar no cancro oral.

Efeito local das bebidas: por entrarem em contacto direto e repetido com a mucosa oral, as bebidas açucaradas poderão ter um impacto diferente do açúcar ingerido em alimentos sólidos. É uma hipótese, não uma conclusão.

O que o estudo ainda não prova

Este é um estudo observacional. Identifica uma associação, mas não demonstra causalidade. É possível que o consumo de bebidas açucaradas esteja ligado a outros comportamentos ou exposições que a análise não conseguiu medir totalmente.

Há outras limitações importantes: ocorreram apenas 124 casos, o que gerou intervalos de confiança amplos; a alimentação foi autorreportada; todas as participantes eram mulheres, profissionais de saúde e maioritariamente brancas; e os resultados obtidos nos Estados Unidos podem não se aplicar da mesma forma a outros países ou a bebidas com formulações diferentes.

Além disso, os resultados não mostram uma progressão perfeitamente regular entre todas as categorias de consumo. Por isso, este trabalho deve ser entendido como gerador de uma hipótese forte, que precisa de confirmação em populações maiores, mais diversas e que incluam homens.

O que fazer na prática?

Não é necessário esperar por novos estudos para reduzir um hábito que já está associado a cárie dentária, excesso de peso e outras doenças crónicas. A Organização Mundial da Saúde recomenda limitar os açúcares livres a menos de 10% da energia diária e, idealmente, a menos de 5%.

Faça da água a bebida habitual, e não apenas a alternativa quando não existe refrigerante.

Reserve refrigerantes, limonadas, chás açucarados e outras bebidas adoçadas para ocasiões pontuais, em vez de os integrar na rotina diária.

Leia os rótulos: o açúcar também aparece em bebidas que são apresentadas como naturais, energéticas ou à base de fruta.

Não confunda sumo de fruta com fruta inteira: os sumos e concentrados contêm açúcares livres e não têm o mesmo efeito de saciedade da fruta consumida inteira.

Mantenha consultas regulares de saúde oral e não ignore alterações persistentes, mesmo que nunca tenha fumado.

A prevenção não começa no medo começa na atenção.

Uma úlcera que não cicatriza, uma mancha branca ou vermelha, um endurecimento, um nódulo, dor persistente ou dificuldade em mastigar ou engolir devem ser avaliados quando não desaparecem. A maioria destas alterações não é cancro, mas esperar indefinidamente não as torna menos importantes.

Na ImedGaia, a avaliação em Medicina Oral permite observar cuidadosamente os tecidos da boca, integrar sintomas e fatores de risco e definir se uma alteração precisa apenas de vigilância ou de investigação adicional. No cancro oral, reconhecer cedo continua a fazer diferença.

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O vaping não deixa apenas vapor na boca

O que um novo estudo revela sobre o impacto da prática de vaping na saúde oral

O que um novo estudo revela sobre o impacto da prática de vaping na saúde oral

Os cigarros eletrónicos não produzem fumo, mas produzem um aerossol que entra em contacto direto com os dentes, a gengiva, a língua e toda a mucosa oral. Esse contacto repetido expõe a boca à nicotina, a solventes, a aromatizantes e a outras substâncias aquecidas. Por isso, a ausência de combustão não torna a prática de vaping indiferente para a saúde oral.

Grande parte da investigação realizada até agora concentrou-se nas bactérias e na inflamação. Um estudo publicado em 2026 no Journal of Dental Research analisou uma componente ainda pouco estudada do microbioma oral: a comunidade de fungos presente na boca, conhecida como micobioma oral. Os autores encontraram diferenças claras na placa subgengival dos utilizadores de cigarros eletrónicos, tanto nas espécies presentes como nas relações entre fungos e bactérias [1].

O micobioma faz parte do equilíbrio da boca

A boca alberga bactérias, fungos, vírus e outros microrganismos. A sua presença é normal e, quando existe equilíbrio entre as diferentes espécies, esta comunidade contribui para a proteção dos tecidos.

O micobioma é a parte fúngica desse ecossistema. Inclui géneros como Candida, Aspergillus, Saccharomyces e Malassezia. Encontrar um destes fungos não é, por si só, sinal de doença. A Candida, por exemplo, pode estar presente numa boca saudável sem provocar qualquer sintoma.

O que importa é perceber em que quantidade surge cada microrganismo, como se comporta e de que forma interage com as outras espécies. Alterações do pH, redução da saliva, inflamação, alguns medicamentos e a exposição ao tabaco podem perturbar esse equilíbrio. Quando a composição da comunidade se altera de forma desfavorável, fala-se em disbiose. Não se trata de um diagnóstico de infeção, mas de uma mudança que pode facilitar a formação de biofilmes e a proliferação de microrganismos oportunistas.

Um estudo com adultos jovens e sem periodontite

Nikam e colaboradores estudaram 123 adultos entre os 21 e os 35 anos, todos sistemicamente saudáveis e sem periodontite. Os participantes foram divididos em cinco grupos: fumadores, pessoas que nunca tinham fumado nem utilizado cigarros eletrónicos, utilizadores exclusivos de cigarros eletrónicos, antigos fumadores que substituíram o tabaco convencional pela prática de vaping e utilizadores simultâneos dos dois produtos [1].

Foram recolhidas amostras de placa subgengival em 15 locais da boca. Através de sequenciação metagenómica, os investigadores identificaram os fungos presentes, analisaram genes relacionados com a sua atividade e estudaram as associações entre as comunidades fúngicas e bacterianas.

No total, identificaram 98 grupos taxonómicos de fungos e 2960 genes de origem fúngica. Os utilizadores exclusivos de cigarros eletrónicos apresentavam maior diversidade fúngica do que os fumadores e do que as pessoas que nunca tinham usado nenhum dos produtos. Também se observou maior representação de espécies como Candida albicans, Aspergillus oryzae e Schizosaccharomyces pombe.

Maior diversidade não é necessariamente uma boa notícia. Tanto pode corresponder a um ecossistema estável como refletir a adaptação de novas espécies a um ambiente alterado. Neste caso, coincidiu com diferenças em funções relacionadas com a resposta ao stress, a reparação do ADN, o transporte através das membranas celulares e o processamento de substâncias estranhas ao organismo.

Uma rede mais densa entre fungos e bactérias

A diferença mais expressiva surgiu na forma como fungos e bactérias se associavam. Nos utilizadores exclusivos de cigarros eletrónicos foram encontradas 245 correlações significativas entre estes microrganismos. Entre as pessoas que nunca tinham fumado nem utilizado cigarros eletrónicos foram registadas 54; entre os fumadores, 45 [1].

Uma correlação não prova que um microrganismo estimule ou prejudique outro. Ainda assim, a diferença entre os grupos sugere uma alteração relevante na organização da comunidade subgengival. Candida, Aspergillus e Schizosaccharomyces ocupavam posições centrais nessa rede.

Este dado interessa porque a placa dentária não é apenas uma acumulação de espécies independentes. Os microrganismos formam biofilmes, comunicam entre si, partilham nutrientes e podem influenciar a adesão e a resistência uns dos outros. Em certas condições, a interação entre Candida albicans e algumas bactérias orais contribui para biofilmes mistos mais persistentes.

O que já se sabia sobre a prática de vaping e o microbioma oral

Estudos anteriores tinham identificado alterações sobretudo na componente bacteriana. Thomas e colaboradores acompanharam 84 participantes durante seis meses e verificaram que os utilizadores de cigarros eletrónicos mantinham uma comunidade bacteriana subgengival própria. Foram também encontrados alguns grupos associados à doença periodontal, entre os quais Fusobacterium e Bacteroidales [2].

Num trabalho que reuniu amostras humanas e experiências em laboratório, Pushalkar e colaboradores observaram diferenças na composição do microbioma oral e na resposta inflamatória das células expostas ao aerossol dos cigarros eletrónicos. Nos modelos celulares utilizados, a exposição esteve ainda associada a maior suscetibilidade à infeção [3].

Há também dados laboratoriais especificamente sobre a Candida albicans. Num estudo de 2019, a exposição ao vapor do cigarro eletrónico aumentou o crescimento deste fungo, favoreceu a formação de estruturas filamentosas e reforçou a sua adesão às células epiteliais da gengiva [4]. São características que podem facilitar a colonização e a formação de biofilme. Como a experiência foi realizada in vitro, não é possível transpor diretamente estes resultados para a boca humana.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 reuniu 12 estudos em humanos e confirmou que o microbioma oral dos utilizadores de cigarros eletrónicos difere do encontrado em fumadores e em pessoas que nunca fumaram [5]. No entanto, os estudos usaram locais de colheita, tipos de amostra e métodos distintos. Eram também, na sua maioria, estudos transversais, com poucos participantes e pouca uniformidade na caracterização da exposição. Por estas razões, os autores classificaram a certeza global da evidência como muito baixa.

Alterações no micobioma não são um diagnóstico

O estudo do Journal of Dental Research não demonstrou que a prática de vaping provoca candidíase, cárie, periodontite ou cancro oral. Os participantes eram jovens, saudáveis e não tinham periodontite. O trabalho mostra diferenças microbiológicas, não o aparecimento de doença.

O desenho transversal permite observar o micobioma num determinado momento, mas não acompanhar a sua evolução. Também não esclarece se as alterações desaparecem depois de deixar de utilizar o cigarro eletrónico. A exposição foi relatada pelos próprios participantes e não confirmada através de análises bioquímicas. A alimentação, a higiene oral e a composição dos líquidos utilizados podem igualmente ter influenciado os resultados.

Apesar destas limitações, o estudo detetou alterações em pessoas que ainda não apresentavam doença periodontal. É esse o seu principal contributo: mostrar que o contacto com o aerossol pode estar associado a mudanças precoces no ecossistema oral. Para determinar se essas mudanças aumentam efetivamente o risco de doença, serão necessários estudos maiores e com acompanhamento ao longo de vários anos.

Cigarros eletrónicos, tabaco e redução de risco

Há duas comparações diferentes que não devem ser confundidas. Uma pessoa que substitui completamente o tabaco convencional pelo cigarro eletrónico pode reduzir a exposição a vários produtos resultantes da combustão. Isso não torna o cigarro eletrónico comparável à ausência de consumo de tabaco ou da prática de vaping.

Uma revisão crítica de 52 estudos concluiu que os efeitos adversos na saúde oral tendiam a ser menos acentuados nos utilizadores de cigarros eletrónicos do que nos fumadores, mas mais frequentes do que nas pessoas que não consumiam tabaco ou nicotina [6]. A heterogeneidade dos estudos impede, contudo, conclusões definitivas.

Quem utiliza o cigarro eletrónico para deixar de fumar não deve interpretar estes dados como motivo para regressar ao tabaco convencional. O passo seguinte deve ser a cessação completa, com acompanhamento profissional sempre que necessário. O uso simultâneo de cigarros convencionais e eletrónicos também não deve ser encarado como uma solução segura.

Sinais que justificam avaliação

O uso de cigarros eletrónicos deve ser referido ao médico dentista, tal como o consumo atual ou anterior de tabaco. É útil indicar a frequência, o teor de nicotina e se existe utilização simultânea dos dois produtos.

Alguns sinais justificam uma observação clínica, sobretudo quando persistem:

• secura da boca;

• ardor, dor ou irritação da mucosa;

• sangramento gengival;

• mau hálito persistente;

• placas brancas ou vermelhas;

• alterações da textura da mucosa;

• feridas que não cicatrizam no prazo de duas semanas;

• retração gengival ou mobilidade dentária.

Estes sintomas podem ter várias causas. A observação clínica é necessária para perceber a sua origem e decidir se é preciso investigar ou tratar.

O que estes dados mudam na prática

A investigação disponível ainda não permite medir o risco de doença oral associado à prática de vaping a longo prazo. Permite, no entanto, afirmar que o aerossol do cigarro eletrónico não é neutro para a boca. Foram já descritas alterações nas comunidades bacterianas, na resposta inflamatória e, agora, também na composição e organização dos fungos presentes na placa subgengival.

Na prática clínica, esta exposição deve fazer parte da história de saúde de cada pessoa. A vigilância regular da gengiva e da mucosa oral, aliada ao apoio para a cessação do consumo de tabaco e nicotina, continua a ser a abordagem mais prudente.

Referências bibliográficas

1. Nikam R, Kalani K, Beverly M, Kumar PS. The Vape, the Mouth, and the Mycobiome: A Comparative Metagenomic Analysis. Journal of Dental Research. 2026. doi: 10.1177/00220345261450182.

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4. Alanazi H, Semlali A, Chmielewski W, Rouabhia M. E-Cigarettes Increase Candida albicans Growth and Modulate its Interaction with Gingival Epithelial Cells. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2019;16(2):294. doi: 10.3390/ijerph16020294.

5. La Rosa GRM, Samaranayake LP, Zaura E, et al. Impact of Electronic Cigarette Use on the Oral Microbiota: A Systematic Review. Journal of Clinical Periodontology. 2026;53(6):956-985. doi: 10.1111/jcpe.70111.

6. Scherer G, Pluym N, Scherer M. Oral Health Risks in Adults Who Use Electronic Nicotine Delivery Systems and Oral Nicotine Pouches: A Critical Review of the Literature and Qualitative Synthesis of the Available Evidence. Harm Reduction Journal. 2024;21(1):229. doi: 10.1186/s12954-024-01147-y.

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A saúde oral pode estar a comprometer o seu desempenho desportivo  

A saúde oral pode comprometer o desempenho desportivo? Conheça a evidência científica e saiba como prevenir problemas que afetam atletas.

E muitos atletas não se apercebem…

Quando um atleta procura melhorar o seu desempenho, pensa normalmente no treino, na alimentação, na recuperação ou na preparação mental. Poucos imaginam que uma cárie, uma gengiva inflamada ou um desgaste dentário possam fazer parte da equação. A evidência científica sugere precisamente isso: a saúde oral pode influenciar a forma como treinamos, recuperamos e competimos.

Durante muitos anos, a Medicina Dentária foi encarada, no contexto desportivo, sobretudo como uma resposta aos traumatismos. Um dente partido durante um jogo ou uma lesão causada por um impacto eram vistos como os principais problemas orais dos atletas.

Hoje sabemos que a realidade é bastante mais complexa.

A investigação realizada na última década demonstra que problemas como a cárie dentária, a doença periodontal, a erosão dentária, as infeções orais e até o bruxismo são surpreendentemente frequentes entre atletas de alta competição. Mais importante ainda, um número significativo refere que estes problemas afetam o treino, a recuperação e o próprio rendimento desportivo.

A boca não é um sistema isolado do resto do organismo. Tal como acontece com qualquer outra estrutura do corpo, alterações na sua saúde podem ter repercussões que vão muito além do sorriso.

A boca faz parte do organismo e também da performance

É fácil pensar na saúde oral apenas em termos de dentes. No entanto, a cavidade oral é um tecido biologicamente ativo, intensamente vascularizado e permanentemente ligado ao restante organismo.

Quando existe uma doença oral persistente, como a doença periodontal, ocorre uma resposta inflamatória contínua. Embora a forma como esta inflamação influencia diretamente o desempenho desportivo continue a ser objeto de investigação, sabe-se que a inflamação crónica pode afetar diferentes sistemas do organismo e contribuir para uma menor sensação de bem-estar.

Por outro lado, problemas aparentemente simples podem ter consequências muito práticas porque, quando falamos de atletas de alto rendimento, em que diferenças mínimas podem separar o primeiro do quinto lugar, estes pequenos fatores deixam de ser insignificantes.

·      Uma dor dentária pode perturbar o sono.

·      Uma infeção pode obrigar à suspensão de treinos.

·      Uma dificuldade em mastigar pode comprometer a ingestão alimentar.

·      Uma sensibilidade intensa pode dificultar a hidratação adequada.

O que diz a ciência?

A preocupação com a saúde oral dos atletas não é recente. Um dos estudos mais marcantes foi realizado durante os Jogos Olímpicos de Londres de 2012. A investigação revelou uma elevada prevalência de problemas dentários entre atletas olímpicos, incluindo cárie dentária, doença periodontal e erosão dentária. Muitos dos participantes referiram que estas condições afetavam negativamente a sua qualidade de vida e o seu desempenho desportivo.

Desde então, várias revisões sistemáticas chegaram a conclusões semelhantes: embora ainda existam limitações metodológicas e sejam necessários mais estudos prospetivos, existe evidência consistente de que a saúde oral pode influenciar o bem-estar e, em determinadas circunstâncias, o rendimento desportivo.

Mais recentemente, um estudo publicado em 2026 no British Dental Journal comparou, pela primeira vez, atletas de elite e para-atletas de elite. Os resultados mostraram que mais de metade dos participantes referiu impactos da saúde oral na sua vida diária e cerca de metade afirmou que problemas orais interferiram com os treinos ou com a competição durante o último ano. Curiosamente, os atletas de elite reportaram um impacto no desempenho significativamente superior ao observado nos para-atletas.

Embora este estudo não demonstre uma relação de causa e efeito, reforça a ideia de que a saúde oral deve ser considerada parte integrante da preparação física e médica dos atletas.

Porque é que os atletas apresentam um risco acrescido?

À primeira vista, pode parecer surpreendente que pessoas tão preocupadas com a saúde apresentem uma elevada frequência de problemas orais. A explicação está, em parte, nas exigências específicas da prática desportiva.

Alimentação desportiva

Bebidas isotónicas, bebidas energéticas, géis e suplementos ricos em hidratos de carbono desempenham um papel importante em muitas modalidades. Contudo, muitos destes produtos apresentam elevada acidez e contêm açúcares fermentáveis, fatores que favorecem simultaneamente a erosão dentária e o desenvolvimento de cárie.

Não significa que devam ser evitados quando são clinicamente indicados, mas a sua utilização deve ser acompanhada por estratégias de proteção da saúde oral.

Desidratação

Durante o exercício intenso, a diminuição do fluxo salivar é frequente.

A saliva constitui um dos principais mecanismos naturais de defesa da cavidade oral. Neutraliza ácidos, ajuda na remineralização do esmalte e reduz a proliferação bacteriana. Quando a produção salivar diminui, os dentes tornam-se mais vulneráveis.

Rotinas exigentes

Treinos diários, deslocações, competições e estágios fazem com que muitos atletas adiem consultas de Medicina Oral.

É frequente procurar assistência apenas quando surge dor, altura em que o problema já evoluiu para fases mais complexas.

Traumatismos

Em modalidades de contacto, o risco de fraturas dentárias continua a ser uma realidade. Nestes casos, a utilização de protetores bucais individualizados continua a ser uma das medidas preventivas mais eficazes.

Stress competitivo

A tensão psicológica associada à competição pode contribuir para hábitos parafuncionais, como o apertamento ou o ranger dos dentes, favorecendo desgaste dentário, dores musculares e alterações da articulação temporomandibular.

Os problemas orais mais frequentes nos atletas

Cárie dentária

Continua a ser uma das doenças crónicas mais frequentes em todo o mundo e não poupa os atletas.

Quando não tratada, pode provocar dor, infeção e necessidade de tratamentos urgentes durante a época competitiva.

Doença periodontal

O sangramento gengival nunca deve ser considerado normal.

A doença periodontal resulta da inflamação dos tecidos que suportam os dentes e, quando progride, pode levar à perda de suporte ósseo e, em casos avançados, à perda dentária.

Erosão dentária

Resulta da perda progressiva do esmalte devido à ação de ácidos, frequentemente agravada pelo consumo repetido de bebidas isotónicas e energéticas.

Ao contrário da cárie, a erosão não depende da ação das bactérias. É um processo irreversível.

Bruxismo

Muitos atletas apertam ou rangem os dentes, sobretudo durante períodos de maior exigência competitiva.

O desgaste dentário, a dor muscular e as cefaleias podem ser algumas das suas manifestações.

Traumatismos

São particularmente relevantes em modalidades de contacto.

Felizmente, uma parte significativa destas lesões pode ser evitada através de medidas preventivas adequadas.

Muito mais do que dor

Existe uma ideia errada de que só devemos preocupar-nos quando aparece dor. Na realidade, muitas doenças orais evoluem silenciosamente durante meses ou anos.

Uma gengivite inicial raramente provoca sintomas importantes; uma pequena lesão de cárie pode ser totalmente assintomática e o desgaste dentário instala-se. É precisamente por isso que a prevenção assume um papel tão importante.

Esperar pela dor significa, muitas vezes, perder a oportunidade de intervir numa fase em que o tratamento seria mais simples, menos invasivo e menos dispendioso.

Sete sinais que um atleta não deve ignorar

Independentemente da modalidade praticada, vale a pena procurar uma avaliação de Medicina Oral se notar:

  • sangramento das gengivas durante a escovagem;

  • sensibilidade persistente ao frio ou ao doce;

  • dor ao mastigar;

  • desgaste dos dentes;

  • boca seca frequente;

  • dor ou estalidos na mandíbula;

  • mau hálito persistente.

São alterações frequentemente desvalorizadas, mas que podem representar o início de doenças que comprometem não apenas a saúde oral, como também o conforto durante o treino e a competição.

A prevenção também faz parte do treino

Hoje ninguém questiona a importância da nutrição, da fisioterapia ou da preparação psicológica e a saúde oral deve integrar essa mesma abordagem multidisciplinar.

Uma avaliação periódica permite identificar problemas precocemente, reduzir o risco de urgências durante a época competitiva e adaptar estratégias preventivas às características de cada modalidade. Do mesmo modo, a colaboração entre médicos dentistas, médicos do desporto, nutricionistas e fisioterapeutas contribui para uma abordagem mais completa do atleta.

Os atletas investem milhares de horas para ganhar pequenas vantagens competitivas. Ajustam programas de treino, aperfeiçoam a técnica, monitorizam a recuperação e analisam detalhadamente a alimentação - a saúde oral merece o mesmo nível de atenção.

Não porque, por si só, transforme um atleta mediano num campeão, mas porque pode eliminar um fator evitável que interfere com o conforto, a alimentação, o sono, a recuperação e, em alguns casos, com o próprio desempenho.

A evidência científica continua a evoluir, mas a mensagem é cada vez mais clara: cuidar da saúde oral não é apenas uma questão de preservar dentes. É uma parte integrante da saúde global e, para quem pratica desporto, também pode ser uma componente importante da preparação para competir no seu melhor.

Referências bibliográficas

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Menopausa, a saúde oral e a osteoporose

A menopausa pode afetar muito mais do que os ossos. Descubra como a saúde oral pode ajudar a identificar sinais precoces de osteoporose.

Poderá a sua boca revelar sinais de osteoporose?

Quando se fala de menopausa e perimenopausa, a atenção centra-se quase sempre nos sintomas que mais interferem com o dia a dia. As ondas de calor, as alterações do sono, a secura vaginal, as mudanças de humor, entre muitos outros sintomas, fazem parte da conversa e são reconhecidos pela maioria das mulheres. Existe, no entanto, outra consequência da diminuição dos níveis de estrogénio que evolui de forma muito mais silenciosa e que, por isso, tende a ser menos valorizada: a perda progressiva de massa óssea. A osteoporose desenvolve-se lentamente, muitas vezes ao longo de vários anos, sem provocar qualquer sintoma evidente. Para muitas pessoas, o primeiro sinal da doença surge apenas quando acontece uma fratura após um traumatismo mínimo, momento em que já ocorreu uma perda significativa da qualidade do osso. O que é menos conhecido é que estas alterações não se limitam à coluna vertebral, ao fémur ou ao punho. A mandíbula faz parte do mesmo sistema esquelético e também sofre as consequências das alterações do metabolismo ósseo associadas ao envelhecimento e à menopausa. Nos últimos anos, vários investigadores começaram precisamente a perguntar se as alterações observadas durante uma consulta de Medicina Dentária poderiam fornecer pistas sobre a saúde óssea de todo o organismo. A resposta parece começar a ser afirmativa. Um estudo recentemente aceite para publicação na revista Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology and Oral Radiology reforça a ideia de que existe uma relação estreita entre osteoporose, doença periodontal e alterações da estrutura do osso mandibular, sugerindo que os exames radiográficos realizados em contexto dentário poderão, no futuro, contribuir para identificar mulheres com maior risco de baixa densidade mineral óssea.

Porque é que a menopausa também afeta a saúde oral?‍ ‍

Os estrogénios desempenham um papel essencial na manutenção do equilíbrio entre a formação e a reabsorção óssea. Durante a vida fértil, existe um controlo relativamente estável deste processo de renovação, permitindo que o osso mantenha a sua resistência e arquitetura. Após a menopausa, com a diminuição abrupta da produção hormonal, esse equilíbrio altera-se e a destruição do tecido ósseo passa a ocorrer mais rapidamente do que a sua regeneração. É precisamente este mecanismo que explica o aumento da incidência de osteoporose nas mulheres após a menopausa. Mas o impacto da deficiência de estrogénios não termina no esqueleto. Os tecidos da cavidade oral também respondem a estas alterações hormonais. A resposta inflamatória modifica-se, a cicatrização pode tornar-se menos eficiente e o osso que suporta os dentes torna-se potencialmente mais vulnerável quando coexistem outros fatores de risco, como a acumulação de placa bacteriana ou a doença periodontal. Por essa razão, a menopausa constitui um período particularmente importante para prestar atenção à saúde oral, não apenas porque algumas doenças podem progredir mais rapidamente, mas também porque a boca pode refletir alterações que estão a ocorrer noutras partes do organismo.

A osteoporose e a periodontite são duas doenças diferentes mas biologicamente relacionadas‍ ‍

Durante muitos anos discutiu-se se a osteoporose seria responsável pelo desenvolvimento da doença periodontal. Hoje sabemos que a resposta não é tão simples. A osteoporose não causa periodontite, da mesma forma que a periodontite não provoca osteoporose. No entanto, ambas partilham mecanismos biológicos importantes, nomeadamente processos inflamatórios e alterações do metabolismo ósseo que favorecem a perda de tecido mineralizado. Na prática, isto significa que uma mulher pode desenvolver doença periodontal sem ter osteoporose e vice-versa. Contudo, quando as duas doenças coexistem, os seus efeitos parecem somar-se, conduzindo a uma maior destruição do osso que suporta os dentes. Foi precisamente esta hipótese que os investigadores procuraram avaliar.

O que descobriu a investigação mais recente?

A investigação incluiu cem mulheres pós-menopáusicas, divididas em quatro grupos: mulheres com osteoporose e doença periodontal, mulheres apenas com osteoporose, mulheres apenas com doença periodontal e um grupo de controlo sem nenhuma destas patologias. Além da densidade mineral óssea da coluna lombar e do fémur, medida por densitometria (DXA), os investigadores avaliaram também a densidade do osso mandibular, o estado periodontal e a organização microscópica do osso da mandíbula através de uma técnica conhecida como análise fractal aplicada às radiografias panorâmicas. Os resultados revelaram um padrão bastante consistente. As participantes que apresentavam simultaneamente osteoporose e doença periodontal foram aquelas que registaram maior destruição dos tecidos de suporte dos dentes, menor densidade óssea da mandíbula e alterações mais marcadas da arquitetura trabecular do osso mandibular. Além disso, verificou-se que a densidade mineral da mandíbula acompanhava a densidade medida na coluna e no fémur: quanto menor era a densidade óssea sistémica, menor tendia também a ser a densidade do osso mandibular. Embora estes resultados não permitam concluir que exista uma relação de causa e efeito, reforçam a ideia de que a mandíbula poderá funcionar como um reflexo da saúde óssea global.

O que é a análise fractal e porque pode dizer muito?

À primeira vista, uma radiografia panorâmica parece limitar-se a mostrar dentes, raízes e osso. No entanto, as imagens contêm muito mais informação do que aquela que é visível a olho nu. A análise fractal é uma técnica matemática que permite avaliar a complexidade da rede trabecular existente no interior do osso. Um osso saudável apresenta uma arquitetura interna rica e organizada, composta por inúmeras trabéculas que distribuem as cargas mecânicas e conferem resistência. À medida que a densidade óssea diminui, esta rede torna-se progressivamente mais simples e menos organizada, alterações que podem ser quantificadas através deste tipo de análise. No estudo agora publicado, valores mais baixos de dimensão fractal estiveram associados não só a menor densidade mineral óssea sistémica, mas também a maior inflamação periodontal, reforçando o potencial desta técnica como ferramenta complementar de avaliação da saúde óssea.

Uma radiografia dentária pode diagnosticar osteoporose?‍ ‍

A resposta é não, e esta distinção é importante. O diagnóstico da osteoporose continua a depender da avaliação clínica realizada pelo médico e da densitometria óssea (DXA), que permanece o método de referência internacional. O que começa a ganhar importância é um conceito diferente: o do rastreio oportunístico. Em vez de realizar um exame específico para procurar osteoporose, aproveita-se uma radiografia efetuada por motivos dentários para identificar alterações que possam justificar uma investigação adicional. Se, durante uma consulta de Medicina Oral ou Medicina Dentária, forem observados sinais compatíveis com diminuição da densidade óssea, poderá fazer sentido encaminhar a doente para uma avaliação médica mais aprofundada, permitindo um diagnóstico potencialmente mais precoce.

A menopausa é também uma oportunidade para cuidar da saúde oral‍ ‍

A entrada na menopausa representa uma fase de profundas alterações fisiológicas e constitui um momento privilegiado para reavaliar vários aspetos da saúde, incluindo aqueles que muitas vezes passam despercebidos. Manter uma boa higiene oral, controlar precocemente a doença periodontal, realizar consultas regulares e discutir fatores de risco para osteoporose com o seu médico assistente são medidas que podem contribuir não apenas para preservar os dentes, mas também para proteger a saúde geral. À medida que a investigação avança, torna-se cada vez mais evidente que a cavidade oral não pode ser encarada como uma estrutura isolada do resto do organismo. A boca faz parte de um sistema complexo onde alterações locais e sistémicas se influenciam mutuamente, razão pela qual uma abordagem integrada é essencial para uma medicina verdadeiramente preventiva. Na IMedGaia acreditamos precisamente nesta visão. Observar atentamente a saúde oral não significa apenas tratar dentes ou gengivas; significa compreender melhor o estado de saúde global de cada pessoa e, sempre que necessário, identificar sinais que justifiquem uma investigação mais aprofundada. É esta ligação entre Medicina Oral e saúde sistémica que permite, muitas vezes, antecipar problemas antes de surgirem as suas consequências mais graves.  

Referências‍ ‍

  1. Karaaslan R, Bagis N, Fentoglu O, Bas Aksu O, Gokcay Canpolat A, Araz M, Cetinel A, Orhan K, Orhan H. Mandibular Bone Density/Fractal Analyses as Potential Diagnostic Indicators for Osteoporosis and Periodontitis in Postmenopausal Women.‍ ‍Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology and Oral Radiology. 2026. In press. DOI: https://doi.org/10.1016/j.oooo.2026.05.020‍ ‍

  2. Yu B, Wang CY. Osteoporosis and periodontal diseases – An update on their association and mechanistic links. Periodontology 2000. 2022;89(1):99–113. https://doi.org/10.1111/prd.12422

  3. Kanis JA. Diagnosis of osteoporosis and assessment of fracture risk. The Lancet. 2002;359(9321):1929–1936. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(02)08761-5

  4. Tonetti MS, Greenwell H, Kornman KS. Staging and grading of periodontitis: Framework and proposal of a new classification and case definition. Journal of Periodontology. 2018;89(Suppl 1):S159–S172. https://doi.org/10.1002/JPER.18-0157

  5. Penoni DC, Torres SR, Oliveira ML, et al. Untreated osteoporosis and higher FRAX as risk factors for tooth loss: a 5-year prospective study. Journal of Bone and Mineral Metabolism. 2023;41:727–737. https://doi.org/10.1007/s00774-023-01451-w‍ ‍

  6. Cavalcante DS, Silva PGB, Carvalho FSR, et al. Is jaw fractal dimension a reliable biomarker for osteoporosis screening? A systematic review and meta-analysis of diagnostic test accuracy studies. Dentomaxillofacial Radiology. 2022;51(4):20210365. https://doi.org/10.1259/dmfr.20210365

  7. Franciotti R, Moharrami M, Quaranta A, et al. Use of fractal analysis in dental images for osteoporosis detection: a systematic review and meta-analysis. Osteoporosis International. 2021;32(6):1041–1052. https://doi.org/10.1007/s00198-021-05852-3‍ ‍

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A saúde oral e a demência é uma ligação que não pode ser ignorada

Nos últimos anos, a ciência tem mostrado que a saúde oral vai muito além da boca. As doenças da cavidade oral, como a periodontite ou a perda dentária, estão associadas a diversas condições sistémicas, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes e, mais recentemente, declínio cognitivo e demência.

A relação entre saúde oral e saúde geral

Nos últimos anos, a ciência tem mostrado que a saúde oral vai muito além da boca. As doenças da cavidade oral, como a periodontite ou a perda dentária, estão associadas a diversas condições sistémicas, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes e, mais recentemente, declínio cognitivo e demência.

Um comentário publicado no BMJ (2025) reforça precisamente esta ligação: a saúde oral merece maior atenção nas estratégias de envelhecimento saudável, sobretudo porque a evidência existente apoia a associação entre doenças orais e declínio cognitivo.

Demência e envelhecimento é um desafio crescente

A demência é atualmente um dos maiores desafios de saúde pública a nível mundial. Embora a sua incidência esteja a diminuir em alguns países desenvolvidos, a prevalência continua a aumentar, devido ao envelhecimento populacional.

Isto significa que vivemos mais anos, mas com maior risco de desenvolver doenças neurodegenerativas como Alzheimer e outras formas de demência.

O que diz a ciência sobre a ligação saúde oral - demência?

A evidência científica aponta várias hipóteses para explicar esta relação:

  • Inflamação crónica: doenças periodontais geram um estado inflamatório persistente, que pode afetar o cérebro.

  • Bactérias orais e disbiose: microrganismos associados à periodontite, como Porphyromonas gingivalis, já foram encontrados em tecido cerebral de doentes com Alzheimer.

  • Perda dentária e mastigação: a ausência de dentes dificulta a mastigação e pode reduzir a estimulação cerebral, associando-se a maior risco de declínio cognitivo.

  • Impacto nutricional: dificuldade em mastigar alimentos saudáveis pode levar a dietas menos equilibradas, afetando a saúde cerebral.

Estudos longitudinais têm demonstrado que pessoas com má saúde oral apresentam maior risco de desenvolver demência (Wu et al., J Am Geriatr Soc, 2024; Kamer et al., Alzheimers Dement, 2023).

Implicações para a saúde pública e clínica

À medida que a população envelhece, torna-se claro que a saúde oral deve ser parte integrante dos programas de envelhecimento saudável. O rastreio e a prevenção das doenças orais em idosos não são apenas uma questão estética ou de conforto - são uma medida essencial de saúde global.

Na prática clínica, isto significa:

  • Consultas regulares de medicina dentária e medicina oral em idosos.

  • Vigilância reforçada em doentes com fatores de risco para demência.

  • Promoção de hábitos de higiene oral e de uma alimentação saudável em todas as fases da vida.

O papel da ImedGaia

Na ImedGaia acreditamos que a medicina deve ser vista de forma integrada. Ao cuidar da sua saúde oral, está também a proteger o seu cérebro e a sua qualidade de vida futura.

Cuidar da boca é cuidar da mente.

Marque a sua consulta e fale connosco sobre prevenção oral em todas as fases da vida, incluindo o envelhecimento.

 

Referências científicas

  1. Chu C. Burden of dementia: oral health needs attention. BMJ 2025;390:r1696.

  2. Wu B, et al. Oral health and risk of dementia in older adults: a longitudinal study. J Am Geriatr Soc. 2024.

  3. Kamer AR, et al. Periodontal disease and cognitive decline: mechanisms and clinical evidence. Alzheimers Dement. 2023.

  4. Chen CK, et al. Tooth loss, mastication, and dementia: a meta-analysis. J Dent Res. 2022.

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Síndrome da Boca Ardente

A Síndrome da Boca Ardente (BMS, do inglês Burning Mouth Syndrome) é uma condição caracterizada por uma sensação persistente de ardor ou dor na boca, sem que existam lesões visíveis. Afeta sobretudo mulheres a partir da menopausa, mas pode surgir em qualquer idade.

Sintomas, causas e opções de tratamento

O que é a Síndrome da Boca Ardente?

A Síndrome da Boca Ardente (BMS, do inglês Burning Mouth Syndrome) é uma condição caracterizada por uma sensação persistente de ardor ou dor na boca, sem que existam lesões visíveis. Afeta sobretudo mulheres a partir da menopausa, mas pode surgir em qualquer idade.

É considerada uma condição neuropática, ou seja, está ligada a alterações na forma como os nervos transmitem a sensação de dor. Embora não ponha a vida em risco, pode afetar seriamente a qualidade de vida.

Principais sintomas

  • Ardor na língua, lábios, palato ou em toda a boca

  • Sensação de secura (mesmo quando a saliva está normal)

  • Alterações no paladar (gosto metálico ou amargo)

  • Formigueiro ou dormência

  • Desconforto que tende a piorar ao longo do dia, mas melhora durante o sono

Segundo a International Classification of Headache Disorders (ICHD-3), o diagnóstico requer sintomas diários durante pelo menos 3 meses e com duração de 2 ou mais horas por dia.

Possíveis causas

Em muitos casos, a BMS é primária (sem causa identificável clara). Noutros, é secundária, podendo estar associada a:

  • Deficiências nutricionais (ferro, vitamina B12, ácido fólico, zinco)

  • Diabetes ou alterações da tiroide

  • Candidíase oral

  • Xerostomia (boca seca por diminuição da saliva ou fármacos)

  • Refluxo gastroesofágico

  • Alterações hormonais (particularmente na menopausa)

  • Stress, ansiedade ou depressão

Como é feito o diagnóstico?

Não existe um exame específico para a Síndrome da Boca Ardente. O diagnóstico é feito por exclusão, após uma avaliação clínica detalhada e exames laboratoriais para despistar outras causas.

Por isso, é importante consultar um especialista em Medicina Oral ou Dor Orofacial para uma avaliação completa.

Opções de tratamento

O tratamento deve ser individualizado e depende de existir ou não uma causa identificável.

Quando há causa secundária

Trata-se diretamente o problema de base (ex.: corrigir défices vitamínicos, tratar candidíase, ajustar medicação).

Quando é BMS primária

As opções incluem:

  • Clonazepam (em comprimidos de baixa dose ou solução tópica, aplicado na boca) - um dos tratamentos com maior evidência científica.

  • Fotobiomodulação (laser de baixa intensidade) - pode reduzir a dor em muitos pacientes.

  • Capsaicina tópica - aplicada sob controlo médico, pode dessensibilizar os nervos envolvidos.

  • Ácido α-lipóico (ALA) - antioxidante com resultados variáveis.

  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) - importante para reduzir o impacto da dor crónica.

  • Medicação neuromoduladora (como antidepressivos ou anticonvulsivantes) - em casos refratários e sempre sob indicação médica.

Viver com a Síndrome da Boca Ardente

Embora não exista uma cura definitiva, muitos pacientes conseguem controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida com acompanhamento especializado e plano terapêutico adequado.

Estudos recentes confirmam que a abordagem multimodal (combinar terapias farmacológicas, psicológicas e locais) é a que oferece melhores resultados.

 

Quando procurar ajuda?

Se sente ardor persistente na boca, não ignore os sintomas. Quanto mais cedo fizer a avaliação do problema, maior a probabilidade de identificar e tratar uma causa subjacente ou iniciar terapias de alívio eficazes.

Marque a sua consulta na ImedGaia. Estamos preparados para avaliar o seu caso de forma personalizada e encontrar consigo a melhor solução.

 

Referências científicas

  • International Classification of Headache Disorders (ICHD-3).

  • Tan HL, et al. Systematic review of treatments for burning mouth syndrome.

  • Kouri M, et al. Small Fiber Neuropathy in BMS: A systematic review.

  • Recent network meta-analyses (2022–2024) sobre eficácia de clonazepam, laser e terapias combinadas.

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Dor Oral

A dor orofacial é uma das razões mais frequentes para a procura de cuidados clínicos e tem um impacto significativo na qualidade de vida. Pode resultar de patologias dentárias (cárie, pulpites reversíveis ou irreversíveis, hipersensibilidade dentinária) ou de disfunções neurossensoriais (neuralgias, dores neuropáticas ou nociplásticas). O diagnóstico diferencial é crucial, uma vez que “a interpretação errada da origem da dor pode levar a diagnóstico incorreto e consequente má gestão”.

A dor orofacial é uma das razões mais frequentes para a procura de cuidados clínicos e tem um impacto significativo na qualidade de vida. Pode resultar de patologias dentárias (cárie, pulpites reversíveis ou irreversíveis, hipersensibilidade dentinária) ou de disfunções neurossensoriais (neuralgias, dores neuropáticas ou nociplásticas) (PMC). O diagnóstico diferencial é crucial, uma vez que “a interpretação errada da origem da dor pode levar a diagnóstico incorreto e consequente má gestão” (PMC).

 

Classificação e Avaliação

A dor orofacial deve ser compreendida de forma multidimensional, integrando fatores biológicos, psicológicos e sociais. Para uma avaliação adequada, utilizam-se escalas subjetivas, questionários e registos clínicos de dor, adaptados ao contexto do paciente (MDPI).

 

Manejo Farmacológico

Em situações de dor oral aguda, como após extrações dentárias, as recomendações internacionais apontam os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) - como ibuprofeno ou naproxeno, isolados ou em combinação com paracetamol - como terapia de primeira linha (ScienceDirect).
Uma meta-análise demonstrou que a associação de ibuprofeno e paracetamol é mais eficaz no controlo da dor do que o placebo (PubMed).

 

Dor em Cirurgia Oral e Contextos Específicos

Na cirurgia oral e na implantologia, a dor é esperada como resposta fisiológica, mas envolve mecanismos fisiopatológicos complexos. O controlo deve ser individualizado e orientado pelos padrões de resposta à dor de cada paciente (PubMed).

 

Ansiedade e Dor Oral

A ansiedade influencia diretamente a perceção da dor em contexto odontológico. A literatura evidencia que estratégias combinadas - farmacológicas e não farmacológicas (como terapias cognitivo-comportamentais, técnicas de distração ou música) - proporcionam melhores resultados no controlo da dor (PubMed).

 

Revisões e Tratamentos Emergentes

Em periodontologia, análises recentes reforçam a importância de personalizar os protocolos (anestésicos, anti-inflamatórios ou combinados), considerando fatores como idade, tipo de procedimento e ansiedade do paciente, para garantir maior conforto e eficácia (PubMed).

Na odontopediatria, têm surgido novas abordagens para tornar a anestesia mais confortável, como sprays intranasais, jet injectors e dispositivos vibratórios, que apresentam resultados promissores na redução da dor e da ansiedade em crianças (PubMed).

Em situações de dor oral aguda, o uso de metoxiflurano inalatório tem sido estudado como alternativa de alívio rápido, embora ainda seja necessária mais investigação antes da sua adoção generalizada (JOMOS).

 

Referências Principais

  • Labanca M. Orofacial Pain and Dentistry Management – diagnóstico diferencial (PMC)

  • Green VG et al. Guidelines for pharmacologic management of acute dental pain (2025) (ScienceDirect)

  • Carrasco-Labra A et al. ADA clinical guideline for acute dental pain in children (2023) (JADA)

  • Raja J et al. Anxiety and Pain Management in Dental Patients (2025) (PubMed)

  • Remi RV et al. New approaches to pain control in pediatric dentistry (2023) (PubMed)

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