Menopausa, a saúde oral e a osteoporose

Poderá a sua boca revelar sinais de osteoporose?

Quando se fala de menopausa e perimenopausa, a atenção centra-se quase sempre nos sintomas que mais interferem com o dia a dia. As ondas de calor, as alterações do sono, a secura vaginal, as mudanças de humor, entre muitos outros sintomas, fazem parte da conversa e são reconhecidos pela maioria das mulheres. Existe, no entanto, outra consequência da diminuição dos níveis de estrogénio que evolui de forma muito mais silenciosa e que, por isso, tende a ser menos valorizada: a perda progressiva de massa óssea. A osteoporose desenvolve-se lentamente, muitas vezes ao longo de vários anos, sem provocar qualquer sintoma evidente. Para muitas pessoas, o primeiro sinal da doença surge apenas quando acontece uma fratura após um traumatismo mínimo, momento em que já ocorreu uma perda significativa da qualidade do osso. O que é menos conhecido é que estas alterações não se limitam à coluna vertebral, ao fémur ou ao punho. A mandíbula faz parte do mesmo sistema esquelético e também sofre as consequências das alterações do metabolismo ósseo associadas ao envelhecimento e à menopausa. Nos últimos anos, vários investigadores começaram precisamente a perguntar se as alterações observadas durante uma consulta de Medicina Dentária poderiam fornecer pistas sobre a saúde óssea de todo o organismo. A resposta parece começar a ser afirmativa. Um estudo recentemente aceite para publicação na revista Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology and Oral Radiology reforça a ideia de que existe uma relação estreita entre osteoporose, doença periodontal e alterações da estrutura do osso mandibular, sugerindo que os exames radiográficos realizados em contexto dentário poderão, no futuro, contribuir para identificar mulheres com maior risco de baixa densidade mineral óssea.

Porque é que a menopausa também afeta a saúde oral?‍ ‍

Os estrogénios desempenham um papel essencial na manutenção do equilíbrio entre a formação e a reabsorção óssea. Durante a vida fértil, existe um controlo relativamente estável deste processo de renovação, permitindo que o osso mantenha a sua resistência e arquitetura. Após a menopausa, com a diminuição abrupta da produção hormonal, esse equilíbrio altera-se e a destruição do tecido ósseo passa a ocorrer mais rapidamente do que a sua regeneração. É precisamente este mecanismo que explica o aumento da incidência de osteoporose nas mulheres após a menopausa. Mas o impacto da deficiência de estrogénios não termina no esqueleto. Os tecidos da cavidade oral também respondem a estas alterações hormonais. A resposta inflamatória modifica-se, a cicatrização pode tornar-se menos eficiente e o osso que suporta os dentes torna-se potencialmente mais vulnerável quando coexistem outros fatores de risco, como a acumulação de placa bacteriana ou a doença periodontal. Por essa razão, a menopausa constitui um período particularmente importante para prestar atenção à saúde oral, não apenas porque algumas doenças podem progredir mais rapidamente, mas também porque a boca pode refletir alterações que estão a ocorrer noutras partes do organismo.

A osteoporose e a periodontite são duas doenças diferentes mas biologicamente relacionadas‍ ‍

Durante muitos anos discutiu-se se a osteoporose seria responsável pelo desenvolvimento da doença periodontal. Hoje sabemos que a resposta não é tão simples. A osteoporose não causa periodontite, da mesma forma que a periodontite não provoca osteoporose. No entanto, ambas partilham mecanismos biológicos importantes, nomeadamente processos inflamatórios e alterações do metabolismo ósseo que favorecem a perda de tecido mineralizado. Na prática, isto significa que uma mulher pode desenvolver doença periodontal sem ter osteoporose e vice-versa. Contudo, quando as duas doenças coexistem, os seus efeitos parecem somar-se, conduzindo a uma maior destruição do osso que suporta os dentes. Foi precisamente esta hipótese que os investigadores procuraram avaliar.

O que descobriu a investigação mais recente?

A investigação incluiu cem mulheres pós-menopáusicas, divididas em quatro grupos: mulheres com osteoporose e doença periodontal, mulheres apenas com osteoporose, mulheres apenas com doença periodontal e um grupo de controlo sem nenhuma destas patologias. Além da densidade mineral óssea da coluna lombar e do fémur, medida por densitometria (DXA), os investigadores avaliaram também a densidade do osso mandibular, o estado periodontal e a organização microscópica do osso da mandíbula através de uma técnica conhecida como análise fractal aplicada às radiografias panorâmicas. Os resultados revelaram um padrão bastante consistente. As participantes que apresentavam simultaneamente osteoporose e doença periodontal foram aquelas que registaram maior destruição dos tecidos de suporte dos dentes, menor densidade óssea da mandíbula e alterações mais marcadas da arquitetura trabecular do osso mandibular. Além disso, verificou-se que a densidade mineral da mandíbula acompanhava a densidade medida na coluna e no fémur: quanto menor era a densidade óssea sistémica, menor tendia também a ser a densidade do osso mandibular. Embora estes resultados não permitam concluir que exista uma relação de causa e efeito, reforçam a ideia de que a mandíbula poderá funcionar como um reflexo da saúde óssea global.

O que é a análise fractal e porque pode dizer muito?

À primeira vista, uma radiografia panorâmica parece limitar-se a mostrar dentes, raízes e osso. No entanto, as imagens contêm muito mais informação do que aquela que é visível a olho nu. A análise fractal é uma técnica matemática que permite avaliar a complexidade da rede trabecular existente no interior do osso. Um osso saudável apresenta uma arquitetura interna rica e organizada, composta por inúmeras trabéculas que distribuem as cargas mecânicas e conferem resistência. À medida que a densidade óssea diminui, esta rede torna-se progressivamente mais simples e menos organizada, alterações que podem ser quantificadas através deste tipo de análise. No estudo agora publicado, valores mais baixos de dimensão fractal estiveram associados não só a menor densidade mineral óssea sistémica, mas também a maior inflamação periodontal, reforçando o potencial desta técnica como ferramenta complementar de avaliação da saúde óssea.

Uma radiografia dentária pode diagnosticar osteoporose?‍ ‍

A resposta é não, e esta distinção é importante. O diagnóstico da osteoporose continua a depender da avaliação clínica realizada pelo médico e da densitometria óssea (DXA), que permanece o método de referência internacional. O que começa a ganhar importância é um conceito diferente: o do rastreio oportunístico. Em vez de realizar um exame específico para procurar osteoporose, aproveita-se uma radiografia efetuada por motivos dentários para identificar alterações que possam justificar uma investigação adicional. Se, durante uma consulta de Medicina Oral ou Medicina Dentária, forem observados sinais compatíveis com diminuição da densidade óssea, poderá fazer sentido encaminhar a doente para uma avaliação médica mais aprofundada, permitindo um diagnóstico potencialmente mais precoce.

A menopausa é também uma oportunidade para cuidar da saúde oral‍ ‍

A entrada na menopausa representa uma fase de profundas alterações fisiológicas e constitui um momento privilegiado para reavaliar vários aspetos da saúde, incluindo aqueles que muitas vezes passam despercebidos. Manter uma boa higiene oral, controlar precocemente a doença periodontal, realizar consultas regulares e discutir fatores de risco para osteoporose com o seu médico assistente são medidas que podem contribuir não apenas para preservar os dentes, mas também para proteger a saúde geral. À medida que a investigação avança, torna-se cada vez mais evidente que a cavidade oral não pode ser encarada como uma estrutura isolada do resto do organismo. A boca faz parte de um sistema complexo onde alterações locais e sistémicas se influenciam mutuamente, razão pela qual uma abordagem integrada é essencial para uma medicina verdadeiramente preventiva. Na IMedGaia acreditamos precisamente nesta visão. Observar atentamente a saúde oral não significa apenas tratar dentes ou gengivas; significa compreender melhor o estado de saúde global de cada pessoa e, sempre que necessário, identificar sinais que justifiquem uma investigação mais aprofundada. É esta ligação entre Medicina Oral e saúde sistémica que permite, muitas vezes, antecipar problemas antes de surgirem as suas consequências mais graves.  

Referências‍ ‍

  1. Karaaslan R, Bagis N, Fentoglu O, Bas Aksu O, Gokcay Canpolat A, Araz M, Cetinel A, Orhan K, Orhan H. Mandibular Bone Density/Fractal Analyses as Potential Diagnostic Indicators for Osteoporosis and Periodontitis in Postmenopausal Women.‍ ‍Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology and Oral Radiology. 2026. In press. DOI: https://doi.org/10.1016/j.oooo.2026.05.020‍ ‍

  2. Yu B, Wang CY. Osteoporosis and periodontal diseases – An update on their association and mechanistic links. Periodontology 2000. 2022;89(1):99–113. https://doi.org/10.1111/prd.12422

  3. Kanis JA. Diagnosis of osteoporosis and assessment of fracture risk. The Lancet. 2002;359(9321):1929–1936. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(02)08761-5

  4. Tonetti MS, Greenwell H, Kornman KS. Staging and grading of periodontitis: Framework and proposal of a new classification and case definition. Journal of Periodontology. 2018;89(Suppl 1):S159–S172. https://doi.org/10.1002/JPER.18-0157

  5. Penoni DC, Torres SR, Oliveira ML, et al. Untreated osteoporosis and higher FRAX as risk factors for tooth loss: a 5-year prospective study. Journal of Bone and Mineral Metabolism. 2023;41:727–737. https://doi.org/10.1007/s00774-023-01451-w‍ ‍

  6. Cavalcante DS, Silva PGB, Carvalho FSR, et al. Is jaw fractal dimension a reliable biomarker for osteoporosis screening? A systematic review and meta-analysis of diagnostic test accuracy studies. Dentomaxillofacial Radiology. 2022;51(4):20210365. https://doi.org/10.1259/dmfr.20210365

  7. Franciotti R, Moharrami M, Quaranta A, et al. Use of fractal analysis in dental images for osteoporosis detection: a systematic review and meta-analysis. Osteoporosis International. 2021;32(6):1041–1052. https://doi.org/10.1007/s00198-021-05852-3‍ ‍

Próximo
Próximo

A saúde oral e a demência é uma ligação que não pode ser ignorada