Medicamentos como o Ozempic podem alterar o paladar mas o impacto na boca não fica por aí

Está a tomar Ozempic? A sua boca também pode sentir os efeitos.

A semaglutida, princípio ativo de medicamentos como o Ozempic, o Wegovy e o Rybelsus, tornou-se uma opção importante no tratamento da diabetes tipo 2 e da obesidade. Os seus efeitos sobre o peso, o apetite e o controlo da glicemia são bem conhecidos. Menos conhecida é a forma como algumas das alterações provocadas pelo medicamento podem chegar à boca.

Boca seca, alterações do paladar, mau hálito ou maior sensibilidade dentária são alguns dos sintomas descritos por quem toma semaglutida. Isto não significa que o medicamento ataque diretamente os dentes — essa relação não foi demonstrada. O que pode acontecer é que alguns dos seus efeitos secundários criem condições mais favoráveis ao aparecimento de problemas orais.

Uma revisão publicada em 2026 no Canadian Journal of Diabetes chama precisamente a atenção para esta relação. Os autores identificam a diminuição da saliva, o refluxo, os vómitos, as alterações do paladar e as mudanças na alimentação como os principais aspetos a vigiar.

Porque é que a boca pode ficar mais seca?

A sensação de boca seca não é apenas incómoda. A saliva desempenha um papel muito mais importante do que muitas vezes imaginamos: ajuda a limpar a boca, neutraliza os ácidos, dificulta a multiplicação de microrganismos e contribui para a proteção do esmalte.

Quando existe menos saliva, falar, mastigar ou engolir pode tornar-se desconfortável. Algumas pessoas sentem sede constante, notam a saliva mais espessa ou acordam durante a noite com a boca completamente seca. Se esta situação se mantiver, pode aumentar a probabilidade de desenvolver cáries, inflamação das gengivas, mau hálito e algumas infeções orais.

Beber água ao longo do dia e mascar pastilha elástica sem açúcar, preferencialmente com xilitol, pode estimular a produção de saliva. Mas uma secura intensa ou persistente não deve ser simplesmente ignorada. É importante perceber se está realmente relacionada com a semaglutida ou se existem outros medicamentos ou problemas de saúde envolvidos.

O mau hálito pode não ter origem apenas na boca

A semaglutida abranda o esvaziamento do estômago. É parte da razão pela qual prolonga a sensação de saciedade, mas também pode favorecer eructações, refluxo e, em algumas pessoas, um hálito particularmente desagradável.

Ao mesmo tempo, uma boca mais seca perde parte da sua capacidade natural de limpeza. As bactérias e os restos alimentares permanecem durante mais tempo sobre a língua, os dentes e as gengivas, contribuindo para o odor.

Ainda assim, não se deve assumir que todo o mau hálito de uma pessoa medicada com semaglutida é causado pelo tratamento. A placa bacteriana, a doença das gengivas, as cáries, a acumulação de resíduos na língua e até outros problemas digestivos podem estar na origem do sintoma. Um elixir pode disfarçar temporariamente o cheiro, mas não resolve a causa.

O paladar também pode mudar

Há pessoas que começam a sentir um sabor metálico ou amargo, deixam de apreciar determinados alimentos ou passam a sentir os sabores de forma diferente. Como grande parte daquilo a que chamamos sabor depende também do olfato, as duas alterações podem surgir em conjunto.

Um estudo publicado em 2026 no JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery analisou os registos clínicos de quase 877 mil pessoas com diabetes tipo 2. Metade utilizava medicamentos agonistas dos recetores GLP-1 e a outra metade estava medicada com outros antidiabéticos.

Durante um seguimento de até dois anos, foram registadas alterações do paladar ou do olfato em 0,37% dos utilizadores de medicamentos GLP-1, comparativamente a 0,22% no grupo de controlo. Quando os sentidos foram analisados separadamente, as alterações do paladar surgiram em 0,18% dos utilizadores de GLP-1 e em 0,10% dos restantes participantes. No olfato, os valores foram de 0,15% e 0,07%, respetivamente.

Há, portanto, uma diferença. Mas é igualmente importante colocar estes números em perspetiva: apesar do aumento relativo, estas alterações foram pouco frequentes nos dois grupos.

Além disso, o estudo não avaliou apenas a semaglutida, mas vários medicamentos da mesma família. Tratando-se de uma investigação observacional, permite identificar uma associação, mas não provar que os medicamentos foram a causa direta do problema.

Refluxo e vómitos podem deixar marcas nos dentes

O refluxo, as náuseas e os vómitos são efeitos secundários conhecidos dos medicamentos GLP-1. Quando acontecem apenas ocasionalmente, é pouco provável que causem alterações dentárias importantes. A preocupação surge quando os dentes são expostos repetidamente ao ácido do estômago.

Com o tempo, esse contacto pode desgastar o esmalte. Os dentes podem ficar mais sensíveis ao frio, ao calor ou aos alimentos doces, adquirir um tom mais amarelado ou apresentar superfícies mais lisas e translúcidas. Este processo chama-se erosão dentária e, uma vez perdida, a estrutura do esmalte não se regenera.

Depois de vomitar, a reação imediata de muitas pessoas é escovar os dentes. No entanto, esse é precisamente o momento em que o esmalte está mais amolecido pela acidez. O ideal é bochechar primeiro com água, esperar entre 30 e 60 minutos e só depois escovar suavemente, utilizando uma escova macia e uma pasta dentífrica com flúor.

Se os vómitos ou o refluxo forem frequentes, é importante falar com o médico que acompanha o tratamento. Não é aconselhável aceitar estes sintomas como uma consequência inevitável da medicação.

O que deve fazer para proteger a sua saúde oral?

Na maioria dos casos, não são necessários cuidados extraordinários. É, contudo, importante não desvalorizar os sinais que aparecem depois de iniciar ou aumentar a dose do medicamento.

Uma boa higiene oral continua a ser a principal proteção: escovar os dentes duas vezes por dia com uma pasta fluoretada, limpar diariamente os espaços entre os dentes e remover suavemente os resíduos acumulados sobre a língua. Beber água regularmente também é particularmente importante quando existe sensação de boca seca.

As alterações do apetite merecem igualmente atenção. Comer muito menos não significa necessariamente comer melhor. Uma alimentação pouco variada ou demasiado restritiva pode levar a défices de vitaminas, minerais e proteínas, com consequências para a saúde geral e para os tecidos da boca.

Há ainda uma informação que deve ser sempre transmitida ao médico dentista: a utilização de semaglutida ou de outro medicamento GLP-1. Esta indicação torna-se especialmente relevante antes de uma cirurgia oral com sedação profunda ou anestesia geral, porque o atraso do esvaziamento do estômago pode aumentar o risco de regurgitação. A medicação não deve, porém, ser interrompida sem orientação da equipa médica.

Não é motivo para deixar o tratamento

Os benefícios da semaglutida podem ser muito significativos e os problemas orais descritos não afetam a maioria das pessoas. Também não existe evidência de que o medicamento destrua diretamente os dentes, apesar de expressões alarmistas como “Ozempic teeth” se terem tornado populares nas redes sociais.

O mais sensato é estar atento. Uma boca persistentemente seca, alterações repentinas do paladar, mau hálito que não desaparece, refluxo frequente ou sensibilidade dentária merecem ser avaliados. Reconhecer estes sinais cedo permite proteger a saúde oral sem comprometer um tratamento que pode ser importante para a saúde geral.

Referências

  1. Kofman K, Ouanounou A. Oral Health Considerations and Dental Management Guidelines for Semaglutide Medications. Canadian Journal of Diabetes. 2026. doi:10.1016/j.jcjd.2026.03.008.

  2. Zontag J, Zontag N. Smell and Taste Disturbances Among Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist Users. JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery. 2026;152(8):758-765. doi:10.1001/jamaoto.2026.1498.

 

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