O que pode mudar na sua boca com a menopausa

A menopausa, ou a perimenopausa, pode mudar a sua boca, e há sinais que não deve ignorar.

Boca seca, ardor, alterações do paladar ou gengivas que começam a sangrar podem surgir durante a transição para a menopausa. Nem sempre são causados pelas alterações hormonais, mas também não devem ser considerados acontecimentos sem importância.

Quando pensamos na perimenopausa e na menopausa, é natural pensar primeiro nos afrontamentos, nas alterações do sono, do humor ou da composição corporal. Porém, a boca raramente entra nesta lista.

No entanto, a evidência científica mostra que a transição hormonal pode também fazer-se sentir na cavidade oral. Alterações da saliva, sensação de boca seca, ardor, modificações do paladar e alterações dos tecidos periodontais têm sido descritas em mulheres durante e após a menopausa.

Isto não significa que todos os problemas orais que aparecem nesta fase sejam provocados pela menopausa. Significa, sim, que a menopausa deve fazer parte da história clínica oral da mulher.

Porque é que as hormonas podem afetar a boca?

A diminuição dos níveis de estrogénios que acompanha a menopausa tem repercussões em diferentes tecidos do organismo.

A cavidade oral não é uma exceção. Existem recetores hormonais na mucosa oral e nas glândulas salivares, e têm sido estudadas associações entre a transição menopáusica e alterações da saliva, mucosas, osso alveolar e tecidos periodontais.

Mas é importante não simplificar demasiado esta relação.

A Idade, medicamentos, tabaco, diabetes, higiene oral, doença periodontal pré-existente, osteoporose e outras condições de saúde podem contribuir simultaneamente para aquilo que acontece na boca e a evidência mais recente reforça precisamente esta visão multifatorial.

1. A boca seca é muito mais do que uma sensação desagradável

Uma das queixas descritas com maior frequência é a xerostomia, ou sensação de boca seca.

A saliva desempenha funções essenciais: ajuda a limpar a cavidade oral, neutraliza ácidos, protege os dentes e as mucosas e facilita a mastigação, a deglutição e a perceção do sabor.

Alguns estudos identificaram redução do fluxo salivar e alterações do pH salivar em mulheres após a menopausa. Uma revisão recente da literatura identificou a xerostomia e as alterações do paladar entre as manifestações orais mais frequentemente descritas.

Quando existe efetivamente uma diminuição da produção de saliva, pode aumentar a vulnerabilidade à cárie e a algumas infeções orais. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 analisou especificamente a relação entre menopausa e experiência de cárie dentária, salientando o possível papel das alterações salivares neste período.

Há, contudo, uma questão essencial: boca seca não significa necessariamente menopausa.

Muitos medicamentos, incluindo alguns utilizados com maior frequência a partir da meia-idade também podem diminuir o fluxo salivar. Doenças sistémicas, desidratação e outros fatores também devem ser considerados.

Por isso, uma boca persistentemente seca deve ser avaliada, e não simplesmente atribuída à idade ou às hormonas.

2. Quando a boca arde, mas parece normal

Outra manifestação particularmente relevante é a sensação persistente de ardor na boca ou na língua.

A síndrome de ardor bucal ocorre predominantemente em mulheres peri e pós-menopáusicas e pode acompanhar-se de alterações do paladar, sensação de boca seca ou outras alterações sensitivas.

Um aspeto que pode tornar esta situação particularmente frustrante é o facto de a boca poder apresentar uma aparência perfeitamente normal.

E é precisamente por isso que o sintoma não deve ser desvalorizado.

A síndrome de boca ardente é uma condição complexa e a sua relação com as hormonas sexuais continua a ser investigada. Nem todo o ardor oral durante a menopausa corresponde a esta síndrome. Antes de estabelecer o diagnóstico, é sempre necessário excluir outras causas possíveis.

Deficiências nutricionais, candidíase, alterações salivares, determinados medicamentos e outras doenças da mucosa oral podem produzir sintomas semelhantes.

Uma boca que arde persistentemente precisa sempre de diagnóstico, mesmo quando aparentemente não existe nada para ver.

3. E as gengivas?

Também aqui a relação é mais complexa do que simplesmente afirmar que “a menopausa provoca periodontite”.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 comparou parâmetros periodontais em mulheres pré e pós-menopáusicas. Os estudos incluídos apontaram para maior perda de inserção clínica, maiores profundidades de sondagem e sinais inflamatórios mais pronunciados nas mulheres pós-menopáusicas.

Mas os próprios investigadores deixam uma advertência importante: a certeza da evidência disponível é ainda moderada a baixa e existe considerável variabilidade metodológica entre os estudos. 

Ou seja, a menopausa parece constituir um fator clinicamente relevante, mas não atua isoladamente.

Placa bacteriana, doença periodontal anterior, tabagismo, diabetes, higiene oral, genética e outros determinantes continuam a ser fundamentais.

Por isso, se uma mulher começa a notar gengivas mais sensíveis, sangramento, retração gengival ou mobilidade dentária, não deve assumir simplesmente que “é da menopausa”. É necessário perceber porquê.

4. Menopausa, osso e dentes: qual é a relação?

A diminuição dos estrogénios está também relacionada com alterações do metabolismo ósseo e com o risco de osteoporose.

Como os dentes são suportados pelo osso alveolar, tem sido estudada a possível relação entre perda de densidade mineral óssea sistémica e alterações dos tecidos que suportam os dentes. A literatura recente identifica alterações ósseas alveolares entre os aspetos que merecem atenção nas mulheres após a menopausa, sobretudo quando existe osteoporose.

Mas também aqui é necessário evitar conclusões precipitadas: a menopausa, ou a perimenopausa, não significam inevitavelmente perda dentária.

A manutenção dos dentes depende de muitos fatores e a prevenção e o tratamento adequado da doença periodontal continuam a ter um papel determinante.

A boca pode estar a dizer que alguma coisa mudou

Há sintomas que merecem particular atenção quando aparecem de novo ou persistem:

  • sensação frequente de boca seca;

  • ardor ou dor na língua ou noutras áreas da boca;

  • alteração persistente do paladar, incluindo sabor metálico;

  • gengivas que começam a sangrar, ficam mais sensíveis ou retraem;

  • feridas ou alterações da mucosa que não desaparecem;

  • manchas brancas ou vermelhas persistentes;

  • dificuldade em mastigar ou engolir;

  • mobilidade dentária.

Nenhum destes sinais permite concluir, por si só, que a causa é hormonal e essa é precisamente a razão para os investigar.

A menopausa deve fazer parte da consulta de saúde oral

Uma revisão integrativa recente encontrou não só necessidades de saúde oral nesta população, mas também lacunas importantes no conhecimento das próprias mulheres e dos profissionais de saúde relativamente à saúde oral durante a perimenopausa e menopausa.

A história clínica deve, por isso, acompanhar esta fase da vida e na consulta, é importante informar o médico dentista sobre:

  • a fase da transição menopáusica em que se encontra;

  • sintomas orais novos e quando começaram;

  • medicamentos e suplementos utilizados;

  • diagnóstico de osteopenia ou osteoporose;

  • terapêutica hormonal, quando aplicável;

  • outras alterações relevantes do estado de saúde.

Esta informação pode ajudar a distinguir uma manifestação potencialmente associada à menopausa de uma doença oral independente que necessita de tratamento específico.

O que pode fazer para proteger a saúde oral?

A estratégia não passa por aceitar estas alterações como inevitáveis! 

Uma higiene oral adequada com dentífrico fluoretado, limpeza diária dos espaços interdentários, consultas regulares e avaliação precoce de novos sintomas continuam a constituir a base da prevenção. Nos casos de xerostomia, doença periodontal ou outras alterações específicas, podem ser necessárias medidas preventivas ou terapêuticas individualizadas.

E quanto à terapêutica hormonal da menopausa?

Embora existam estudos sobre os seus possíveis efeitos na saliva, tecidos periodontais e outros parâmetros orais, não deve ser encarada como um tratamento geral para os sintomas da boca. A evidência permanece heterogénea e a indicação para terapêutica hormonal deve ser estabelecida no contexto global da saúde da mulher, não exclusivamente em função da saúde oral.

Uma mudança que merece ser falada

Durante décadas, muitos aspetos da menopausa foram encarados como sintomas que as mulheres simplesmente teriam de aceitar. A saúde oral não deve seguir esse caminho.

Uma boca persistentemente seca, uma sensação de ardor sem causa aparente, uma alteração do paladar ou gengivas que começam subitamente a sangrar podem ter múltiplas explicações e a menopausa pode ser uma delas.

O importante é não normalizar aquilo que merece ser investigado.

Na IMEDGaia, a avaliação da saúde oral considera não apenas os dentes, mas também as mucosas, a saliva, os tecidos periodontais, a medicação, os antecedentes clínicos e as alterações sistémicas que podem influenciar aquilo que acontece na boca.

Porque a boca também faz parte da saúde da mulher, na perimenopausa, menopausa e pós-menopausa.

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