Bebidas açucaradas e cancro oral
O que revela um estudo com mais de 160 mil mulheres
Consumir uma ou mais bebidas açucaradas por dia esteve associado a um risco de cancro oral quase cinco vezes superior. O resultado merece atenção, mas precisa de ser lido para além do número.
Um novo dado num problema que está a mudar
Quando pensamos nos principais fatores de risco para o cancro oral, o tabaco e o álcool surgem quase sempre em primeiro lugar, e com razão. Mas a incidência da doença tem vindo a aumentar em alguns grupos sem estas exposições tradicionais, incluindo pessoas mais jovens e mulheres que nunca fumaram. Isso obrigou a investigação a procurar outras explicações.
Um estudo publicado em 2025 na revista JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery colocou uma possibilidade até agora pouco explorada no centro da discussão: o consumo habitual de bebidas açucaradas.
O que foi estudado?
Os investigadores analisaram dados de 162 602 participantes do Nurses’ Health Study e do Nurses’ Health Study II, duas grandes coortes de profissionais de enfermagem dos Estados Unidos. As mulheres tinham, em média, 43 anos no início da análise e foram acompanhadas durante cerca de três décadas.
A alimentação foi avaliada repetidamente através de questionários. Neste estudo, a categoria de bebidas açucaradas incluiu refrigerantes com açúcar, bebidas gaseificadas açucaradas que não eram colas e bebidas não gaseificadas adoçadas, como limonada e chá açucarado. Uma porção correspondia a um copo, garrafa ou lata.
Ao longo do período de seguimento foram identificados 124 casos invasivos de cancro da cavidade oral. Os investigadores compararam quatro níveis de consumo, desde menos de uma bebida por mês até uma ou mais por dia, e ajustaram a análise a fatores como idade, consumo de tabaco e álcool, índice de massa corporal, ingestão calórica e carga glicémica da dieta.
O resultado que chamou a atenção
As participantes que consumiam uma ou mais bebidas açucaradas por dia apresentaram um risco de cancro da cavidade oral 4,87 vezes superior ao das mulheres que consumiam menos de uma por mês. A associação manteve-se depois dos ajustamentos estatísticos.
Quando a análise foi limitada a mulheres que nunca fumaram ou fumaram pouco e que não bebiam álcool ou tinham um consumo reduzido, o risco relativo foi 5,46 vezes superior no grupo de consumo diário.
Quase cinco vezes mais risco não significa cinco vezes mais casos
Este é o ponto que impede uma conclusão alarmista. O cancro oral foi pouco frequente nesta população. Entre todas as participantes, a taxa estimada passou de 2 para 5 casos por 100 000 pessoas, ou seja, mais 3 casos por 100 000. No subgrupo com baixa exposição a tabaco e álcool, passou de 1 para 4 casos por 100 000.
O aumento relativo é elevado; o aumento absoluto continua a ser pequeno. Ambos são verdadeiros e ambos devem ser comunicados. O estudo não justifica pânico nem permite calcular o risco individual de uma pessoa a partir do número de refrigerantes que bebe.
Como poderá o açúcar estar envolvido?
Os autores apresentam várias hipóteses biológicas, mas nenhuma foi testada diretamente neste trabalho.
Inflamação e doença periodontal: um consumo elevado de açúcares adicionados e de bebidas açucaradas tem sido associado a maior prevalência de periodontite. A inflamação crónica poderá contribuir para um ambiente oral menos saudável.
Alteração do microbioma oral: a exposição frequente ao açúcar pode favorecer desequilíbrios entre microrganismos da boca. Esta disbiose poderá interferir com a barreira da mucosa e com a resposta imunitária local.
Vias metabólicas: picos repetidos de glicose e insulina podem influenciar o eixo insulina–IGF-1, envolvido na proliferação celular, embora esta explicação permaneça por demonstrar no cancro oral.
Efeito local das bebidas: por entrarem em contacto direto e repetido com a mucosa oral, as bebidas açucaradas poderão ter um impacto diferente do açúcar ingerido em alimentos sólidos. É uma hipótese, não uma conclusão.
O que o estudo ainda não prova
Este é um estudo observacional. Identifica uma associação, mas não demonstra causalidade. É possível que o consumo de bebidas açucaradas esteja ligado a outros comportamentos ou exposições que a análise não conseguiu medir totalmente.
Há outras limitações importantes: ocorreram apenas 124 casos, o que gerou intervalos de confiança amplos; a alimentação foi autorreportada; todas as participantes eram mulheres, profissionais de saúde e maioritariamente brancas; e os resultados obtidos nos Estados Unidos podem não se aplicar da mesma forma a outros países ou a bebidas com formulações diferentes.
Além disso, os resultados não mostram uma progressão perfeitamente regular entre todas as categorias de consumo. Por isso, este trabalho deve ser entendido como gerador de uma hipótese forte, que precisa de confirmação em populações maiores, mais diversas e que incluam homens.
O que fazer na prática?
Não é necessário esperar por novos estudos para reduzir um hábito que já está associado a cárie dentária, excesso de peso e outras doenças crónicas. A Organização Mundial da Saúde recomenda limitar os açúcares livres a menos de 10% da energia diária e, idealmente, a menos de 5%.
Faça da água a bebida habitual, e não apenas a alternativa quando não existe refrigerante.
Reserve refrigerantes, limonadas, chás açucarados e outras bebidas adoçadas para ocasiões pontuais, em vez de os integrar na rotina diária.
Leia os rótulos: o açúcar também aparece em bebidas que são apresentadas como naturais, energéticas ou à base de fruta.
Não confunda sumo de fruta com fruta inteira: os sumos e concentrados contêm açúcares livres e não têm o mesmo efeito de saciedade da fruta consumida inteira.
Mantenha consultas regulares de saúde oral e não ignore alterações persistentes, mesmo que nunca tenha fumado.
A prevenção não começa no medo começa na atenção.
Uma úlcera que não cicatriza, uma mancha branca ou vermelha, um endurecimento, um nódulo, dor persistente ou dificuldade em mastigar ou engolir devem ser avaliados quando não desaparecem. A maioria destas alterações não é cancro, mas esperar indefinidamente não as torna menos importantes.
Na ImedGaia, a avaliação em Medicina Oral permite observar cuidadosamente os tecidos da boca, integrar sintomas e fatores de risco e definir se uma alteração precisa apenas de vigilância ou de investigação adicional. No cancro oral, reconhecer cedo continua a fazer diferença.

