O vaping não deixa apenas vapor na boca

O que um novo estudo revela sobre o impacto da prática de vaping na saúde oral

Os cigarros eletrónicos não produzem fumo, mas produzem um aerossol que entra em contacto direto com os dentes, a gengiva, a língua e toda a mucosa oral. Esse contacto repetido expõe a boca à nicotina, a solventes, a aromatizantes e a outras substâncias aquecidas. Por isso, a ausência de combustão não torna a prática de vaping indiferente para a saúde oral.

Grande parte da investigação realizada até agora concentrou-se nas bactérias e na inflamação. Um estudo publicado em 2026 no Journal of Dental Research analisou uma componente ainda pouco estudada do microbioma oral: a comunidade de fungos presente na boca, conhecida como micobioma oral. Os autores encontraram diferenças claras na placa subgengival dos utilizadores de cigarros eletrónicos, tanto nas espécies presentes como nas relações entre fungos e bactérias [1].

O micobioma faz parte do equilíbrio da boca

A boca alberga bactérias, fungos, vírus e outros microrganismos. A sua presença é normal e, quando existe equilíbrio entre as diferentes espécies, esta comunidade contribui para a proteção dos tecidos.

O micobioma é a parte fúngica desse ecossistema. Inclui géneros como Candida, Aspergillus, Saccharomyces e Malassezia. Encontrar um destes fungos não é, por si só, sinal de doença. A Candida, por exemplo, pode estar presente numa boca saudável sem provocar qualquer sintoma.

O que importa é perceber em que quantidade surge cada microrganismo, como se comporta e de que forma interage com as outras espécies. Alterações do pH, redução da saliva, inflamação, alguns medicamentos e a exposição ao tabaco podem perturbar esse equilíbrio. Quando a composição da comunidade se altera de forma desfavorável, fala-se em disbiose. Não se trata de um diagnóstico de infeção, mas de uma mudança que pode facilitar a formação de biofilmes e a proliferação de microrganismos oportunistas.

Um estudo com adultos jovens e sem periodontite

Nikam e colaboradores estudaram 123 adultos entre os 21 e os 35 anos, todos sistemicamente saudáveis e sem periodontite. Os participantes foram divididos em cinco grupos: fumadores, pessoas que nunca tinham fumado nem utilizado cigarros eletrónicos, utilizadores exclusivos de cigarros eletrónicos, antigos fumadores que substituíram o tabaco convencional pela prática de vaping e utilizadores simultâneos dos dois produtos [1].

Foram recolhidas amostras de placa subgengival em 15 locais da boca. Através de sequenciação metagenómica, os investigadores identificaram os fungos presentes, analisaram genes relacionados com a sua atividade e estudaram as associações entre as comunidades fúngicas e bacterianas.

No total, identificaram 98 grupos taxonómicos de fungos e 2960 genes de origem fúngica. Os utilizadores exclusivos de cigarros eletrónicos apresentavam maior diversidade fúngica do que os fumadores e do que as pessoas que nunca tinham usado nenhum dos produtos. Também se observou maior representação de espécies como Candida albicans, Aspergillus oryzae e Schizosaccharomyces pombe.

Maior diversidade não é necessariamente uma boa notícia. Tanto pode corresponder a um ecossistema estável como refletir a adaptação de novas espécies a um ambiente alterado. Neste caso, coincidiu com diferenças em funções relacionadas com a resposta ao stress, a reparação do ADN, o transporte através das membranas celulares e o processamento de substâncias estranhas ao organismo.

Uma rede mais densa entre fungos e bactérias

A diferença mais expressiva surgiu na forma como fungos e bactérias se associavam. Nos utilizadores exclusivos de cigarros eletrónicos foram encontradas 245 correlações significativas entre estes microrganismos. Entre as pessoas que nunca tinham fumado nem utilizado cigarros eletrónicos foram registadas 54; entre os fumadores, 45 [1].

Uma correlação não prova que um microrganismo estimule ou prejudique outro. Ainda assim, a diferença entre os grupos sugere uma alteração relevante na organização da comunidade subgengival. Candida, Aspergillus e Schizosaccharomyces ocupavam posições centrais nessa rede.

Este dado interessa porque a placa dentária não é apenas uma acumulação de espécies independentes. Os microrganismos formam biofilmes, comunicam entre si, partilham nutrientes e podem influenciar a adesão e a resistência uns dos outros. Em certas condições, a interação entre Candida albicans e algumas bactérias orais contribui para biofilmes mistos mais persistentes.

O que já se sabia sobre a prática de vaping e o microbioma oral

Estudos anteriores tinham identificado alterações sobretudo na componente bacteriana. Thomas e colaboradores acompanharam 84 participantes durante seis meses e verificaram que os utilizadores de cigarros eletrónicos mantinham uma comunidade bacteriana subgengival própria. Foram também encontrados alguns grupos associados à doença periodontal, entre os quais Fusobacterium e Bacteroidales [2].

Num trabalho que reuniu amostras humanas e experiências em laboratório, Pushalkar e colaboradores observaram diferenças na composição do microbioma oral e na resposta inflamatória das células expostas ao aerossol dos cigarros eletrónicos. Nos modelos celulares utilizados, a exposição esteve ainda associada a maior suscetibilidade à infeção [3].

Há também dados laboratoriais especificamente sobre a Candida albicans. Num estudo de 2019, a exposição ao vapor do cigarro eletrónico aumentou o crescimento deste fungo, favoreceu a formação de estruturas filamentosas e reforçou a sua adesão às células epiteliais da gengiva [4]. São características que podem facilitar a colonização e a formação de biofilme. Como a experiência foi realizada in vitro, não é possível transpor diretamente estes resultados para a boca humana.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 reuniu 12 estudos em humanos e confirmou que o microbioma oral dos utilizadores de cigarros eletrónicos difere do encontrado em fumadores e em pessoas que nunca fumaram [5]. No entanto, os estudos usaram locais de colheita, tipos de amostra e métodos distintos. Eram também, na sua maioria, estudos transversais, com poucos participantes e pouca uniformidade na caracterização da exposição. Por estas razões, os autores classificaram a certeza global da evidência como muito baixa.

Alterações no micobioma não são um diagnóstico

O estudo do Journal of Dental Research não demonstrou que a prática de vaping provoca candidíase, cárie, periodontite ou cancro oral. Os participantes eram jovens, saudáveis e não tinham periodontite. O trabalho mostra diferenças microbiológicas, não o aparecimento de doença.

O desenho transversal permite observar o micobioma num determinado momento, mas não acompanhar a sua evolução. Também não esclarece se as alterações desaparecem depois de deixar de utilizar o cigarro eletrónico. A exposição foi relatada pelos próprios participantes e não confirmada através de análises bioquímicas. A alimentação, a higiene oral e a composição dos líquidos utilizados podem igualmente ter influenciado os resultados.

Apesar destas limitações, o estudo detetou alterações em pessoas que ainda não apresentavam doença periodontal. É esse o seu principal contributo: mostrar que o contacto com o aerossol pode estar associado a mudanças precoces no ecossistema oral. Para determinar se essas mudanças aumentam efetivamente o risco de doença, serão necessários estudos maiores e com acompanhamento ao longo de vários anos.

Cigarros eletrónicos, tabaco e redução de risco

Há duas comparações diferentes que não devem ser confundidas. Uma pessoa que substitui completamente o tabaco convencional pelo cigarro eletrónico pode reduzir a exposição a vários produtos resultantes da combustão. Isso não torna o cigarro eletrónico comparável à ausência de consumo de tabaco ou da prática de vaping.

Uma revisão crítica de 52 estudos concluiu que os efeitos adversos na saúde oral tendiam a ser menos acentuados nos utilizadores de cigarros eletrónicos do que nos fumadores, mas mais frequentes do que nas pessoas que não consumiam tabaco ou nicotina [6]. A heterogeneidade dos estudos impede, contudo, conclusões definitivas.

Quem utiliza o cigarro eletrónico para deixar de fumar não deve interpretar estes dados como motivo para regressar ao tabaco convencional. O passo seguinte deve ser a cessação completa, com acompanhamento profissional sempre que necessário. O uso simultâneo de cigarros convencionais e eletrónicos também não deve ser encarado como uma solução segura.

Sinais que justificam avaliação

O uso de cigarros eletrónicos deve ser referido ao médico dentista, tal como o consumo atual ou anterior de tabaco. É útil indicar a frequência, o teor de nicotina e se existe utilização simultânea dos dois produtos.

Alguns sinais justificam uma observação clínica, sobretudo quando persistem:

• secura da boca;

• ardor, dor ou irritação da mucosa;

• sangramento gengival;

• mau hálito persistente;

• placas brancas ou vermelhas;

• alterações da textura da mucosa;

• feridas que não cicatrizam no prazo de duas semanas;

• retração gengival ou mobilidade dentária.

Estes sintomas podem ter várias causas. A observação clínica é necessária para perceber a sua origem e decidir se é preciso investigar ou tratar.

O que estes dados mudam na prática

A investigação disponível ainda não permite medir o risco de doença oral associado à prática de vaping a longo prazo. Permite, no entanto, afirmar que o aerossol do cigarro eletrónico não é neutro para a boca. Foram já descritas alterações nas comunidades bacterianas, na resposta inflamatória e, agora, também na composição e organização dos fungos presentes na placa subgengival.

Na prática clínica, esta exposição deve fazer parte da história de saúde de cada pessoa. A vigilância regular da gengiva e da mucosa oral, aliada ao apoio para a cessação do consumo de tabaco e nicotina, continua a ser a abordagem mais prudente.

Referências bibliográficas

1. Nikam R, Kalani K, Beverly M, Kumar PS. The Vape, the Mouth, and the Mycobiome: A Comparative Metagenomic Analysis. Journal of Dental Research. 2026. doi: 10.1177/00220345261450182.

2. Thomas SC, Xu F, Pushalkar S, et al. Electronic Cigarette Use Promotes a Unique Periodontal Microbiome. mBio. 2022;13(1). doi: 10.1128/mbio.00075-22.

3. Pushalkar S, Paul B, Li Q, et al. Electronic Cigarette Aerosol Modulates the Oral Microbiome and Increases Risk of Infection. iScience. 2020;23(3):100884. doi: 10.1016/j.isci.2020.100884.

4. Alanazi H, Semlali A, Chmielewski W, Rouabhia M. E-Cigarettes Increase Candida albicans Growth and Modulate its Interaction with Gingival Epithelial Cells. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2019;16(2):294. doi: 10.3390/ijerph16020294.

5. La Rosa GRM, Samaranayake LP, Zaura E, et al. Impact of Electronic Cigarette Use on the Oral Microbiota: A Systematic Review. Journal of Clinical Periodontology. 2026;53(6):956-985. doi: 10.1111/jcpe.70111.

6. Scherer G, Pluym N, Scherer M. Oral Health Risks in Adults Who Use Electronic Nicotine Delivery Systems and Oral Nicotine Pouches: A Critical Review of the Literature and Qualitative Synthesis of the Available Evidence. Harm Reduction Journal. 2024;21(1):229. doi: 10.1186/s12954-024-01147-y.

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